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TENHO QUE DAR UM TEMPO COM AS TATUAGENS

Recentemente passei por uma fase de mudanças que começou com a minha forma de ver a vida e refletiu na minha forma física. Foram 10 kg a menos em míseros 30 dias. Só me dei conta disso, quando estava andando em plena Avenida Paulista tendo que segurar minha mala no colo porque sua alça havia arrebentado e comecei a sentir minha calça escorregando cintura abaixo. Nunca fui gordo, mas também, nunca precisei usar cinto e, naquele momento, eu entendi todas essas pessoas que relatam o quanto seus corpos mudaram após passarem por momentos cruciais em suas vidas. Porém, ao contrario da maioria dessas pessoas, eu estava mais do que satisfeito com a mudança sofrida. Eu devia ter uns 15 anos, a última vez que olhei pra baixo e enxerguei a musculatura do meu abdômen. Sendo assim, decidi aproveitar o embalo e adotar novos hábitos para ornar e acompanhar a mudança.

Pegar leve na bebida. Fazer uma tattoo nova. Correr diariamente. Pegar leve na bebida. Fazer uma tattoo nova. Beber mais água. Pegar leve na bebida. Fazer uma tattoo nova. Maneirar nos carboidratos. Pegar leve na bebida. Fazer uma tattoo nova. Entrar na academia. Pegar leve na bebida e fazer uma tattoo nova. De todas as mudanças adotadas, a mais fácil foi referente às tatuagens. Foram 14 em menos de dois meses! Talvez, esse seja o único lado bom de ser tatuador e ter amigos tatuadores. A compulsão foi tamanha, que me tatuar já fazia parte da rotina do estúdio onde eu trabalhava e eu não sentia mais a agulha penetrando minha pele. Porém, a dedicação que eu tive para rabiscar o corpo, me faltou na hora de ir à academia.

Eu não sei o que leva uma pessoa a passar horas levantando ferro, enfurnada dentro de um local repleto de outras pessoas suadas, ouvindo uma música ambiente que faz lembrar loja de departamento (Riachuelo, Renner, C&A...). Se esse é o preço que se paga para ter um corpo perfeito, prefiro ficar com o meu do jeito que tá: danificado por anos de má alimentação e abuso ao álcool. Sou capaz de correr 10 km com o maior prazer, mas a simples caminhada rumo à academia vinha se mostrado uma tortura. E não me refiro à série de exercícios imposta pelo personal. Mas, sim, aos meus “coleguinhas” de atividade.

“Você é tatuador?”, perguntou um sujeito alto e imensamente forte, vestindo trajes de lycra. Olhar para ele dava a visão perfeita do que aconteceria caso o Hulk pegasse emprestado as roupas que o Axl Rose usava na fase de ouro do GNR.

“Sou”, respondi, já pensando numa maneira de encerrar o assunto.

“Então”, prosseguiu ele, apontando para uma tatuagem ridícula localizada no seu bíceps que mais se parecia com um balão de festa a ponto de estourar. “Fiz essa tatuagem deve ter uns 20 anos e queria saber quanto custa pra consertar.”

Não é a tatuagem que precisa de conserto, pensei. Mas preferi guardar minha opinião, caso contrário, provavelmente eu não estaria aqui escrevendo esse texto. Enfim, após ter lhe dado um orçamento aproximado, ele me encarou por uns instantes, como se estivesse me avaliando, e soltou: “Vamos fazer um rolo! Você me dá uma moral na tattoo e eu te adianto uns suplementos que vão te fazer crescer igual a um monstro!”.

Fiz que não com a cabeça, ao mesmo tempo em que abri um tímido e amistoso sorriso, tentando não parecer rude por rejeitar sua “tentadora” proposta.

“Qualé?! Você vai ver só! Tu vai ficar enorme!”

Mantive meu sorriso e o sinal de negação com ma cabeça, à medida que me afastava do brutamonte.

Diante o fracasso de sua proposta, ele decidiu adotar uma postura inversa, deixando claro que seu objetivo era, simplesmente, não ficar por baixo.

“To de sacanagem! Quero saber de tatuagem coisa nenhuma! Depois que entrei pra igreja, minha religião não permite. Vou deixar essa merda assim mesmo! Agora, só quero saber de...” e listou uma série de anabolizantes que meu intelecto foi incapaz de memorizar.

Mantive o sorriso tímido e me afastei, caminhando em direção à esteira. Enquanto corria feito um hamster, pensei no que leva alguém a oferecer anabolizantes para mim. Se ele dependesse disso para viver, com certeza estaria passando fome. Pois, a mesma facilidade que tem pra levantar peso, lhe falta para escolher um público-alvo. Questionei se sua transformação física também fora reflexo de alguma mudança em sua vida ou se ele é apenas um desses sujeitos que gostam de se parecer com os super-heróis dos quadrinhos. E, que tipo de igreja é essa que não permite tatuagens, mas aceita que seus seguidores se entupam de drogas com o objetivo de deformar seus corpos? Em meio ao meu emaranhado reflexivo fui novamente surpreendido pelo sujeito que se aproximou e sussurrou no meu ouvido: “Eu já fui gordo”.

Sua confissão carregava certo tom de desabafo, como se ele sentisse a necessidade de justificar os motivos que o levaram a desfigurar o próprio corpo. Isso me fez concluir que, na vida, nenhuma mudança é gratuita. Tudo necessita de um motivo. No caso dele, foi a insatisfação gerada pelo sobrepeso. Às vezes, a mudança é positiva, às vezes não. Às vezes nossa reação é exagerada, às vezes não. No caso dele, o exagero é notável. Então, eu me olhei no espelho e conclui: tenho que dar um tempo com as tatuagens.

Felipe Attie

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