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UM CÃO, UMA FOLHA, UM VENTO

O dia amanhecera exatamente como eu gostava, exatamente como uma manhã de outono. Dentro de casa, a única coisa que eu ouvia era o barulho da brisa que passava ao meu lado, deixando claro que eu era o único acordado. É um bom momento para escrever, pensei, lembrando-me de que era isso que fiquei de fazer, quando ouvi a voz rouca e desleixada do meu chefe dizendo “não precisamos mais de você”. Pelo menos eu teria tempo para me concentrar na escrita e me redescobrir. Naquele momento, a única certeza que eu tinha era a de que, dali em diante, eu não queria fazer nada parecido com o que eu tinha feito até ali.

Lutei contra a preguiça promovida pelo frio, me levantei da cama embrulhado no edredom e andei até minha mesa de trabalho. Minha luminária, presente de um ex-amor, minha caneca, presente de mamãe e meu laptop, fruto de alguns meses de trabalho bastardo. É bom olhar ao redor e ver que está tudo em ordem.

Fui até a cozinha. Voltei com a caneca cheia de café. Liguei o computador. Começou a cair uma chuva fina. Maravilhoso, pensei. Tempos chuvosos sempre me inspiraram. Encarei por alguns instantes a tela vazia do computador. Nada de ideias. Em outros tempos, eu teria pegado um copo e virado goela abaixo. Encher a cara sempre me inspirou. Mas não era um bom momento para pôr tudo a perder. Eu estava indo bem com todo aquele papo de reabilitação e blá blá blá...

Tentei recordar de coisas que haviam acontecido comigo nos últimos tempos. Momentos encantadores, pessoas interessantes, lugares fotográficos, imagens, cenas marcantes de um filme que vivi e que mereceria ser registrado. NADA! Nada parecia ser motivo de palavras. NADA!

Levantei da cadeira e subi no telhado, exatamente como eu costumava fazer quando a professora me obrigava a escrever uma redação para a próxima aula. Tudo que eu vi foi um mundo preguiçoso resumido na rua onde eu morava, na rua onde cresci. Um cão latia para uma folha seca que dançava junto ao vento. São os únicos acordados, pensei. O único sinal de vida: um cão, uma folha e o vento. O vento soprou, fazendo a folha se juntar a todas as demais. O cão continuou a latir, na esperança de reencontrá-la, de fazê-la voltar a dançar, na esperança de resgatar tudo o que ele tinha naquele momento. Latiu em vão. Ele a perdeu. A chuva apertou. O cão parou de latir e olhou em minha direção. O único sinal de vida, ele deve ter pensado. O vento frio, umedecido pela chuva, começou a invadir as frestas do edredom causando desconforto. Olhei a cena uma última vez, antes de me despedir e descer do telhado.

Mais café. Sentei frente ao computador e escrevi. Escrevi sobre coisas desconexas de narrativa lenta e arrastada. Coisas pequenas de importância limitada, mas que, naquele momento, representavam tudo o que eu tinha. Terminei. Levantei. Voltei pra cama. Voltei para o meu mundo. Votei pra preguiça.

Felipe Attie

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