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BEM-VINDO À SAMPA

Assim que pisei em terras paulistanas, eu vi um sujeito invadindo a estação de metrô e discutindo com a fiscal que tentava impedi-lo. Pensei em intervir, mas não me senti no direito. Afinal, tinha acabado de chegar, quem era eu pra interferir no funcionamento do lugar? Sendo assim, peguei meu bilhete, passei pela catraca e me dirigi até a área de embarque.

Os gritos deixavam claro que os nervos estavam exaltados. Apesar disso, ninguém demonstrava a menor intenção de intervir. Mesmo habituado com a violência e o caos carioca, eu era o único que parecia incomodado. De resto, todos se mantinham alheios ao que estava acontecendo. A situação ficou ainda mais tensa, quando a mulher foi agredida ao tentar segurar o infrator. Então, motivado por um impulso heroico que sempre me coloca em enrascadas, larguei minhas malas e fui ajudá-la.

“O que tá acontecendo aqui?”, perguntei, enquanto ajudava a mulher a se levantar.

“Ele me agrediu! Ele me agrediu! Ele me agrediu!”, repetia a mulher, em estado de choque.

“Cara, por que você fez isso?”

“Eu disse pra ela me soltar! Eu disse!”, esbravejou ele.

“Mas você não pagou a passagem!”

“Não interessa! Eu disse pra ela me soltar! Eu disse!”

“Cara, mas você tá errado!”

“Eu to o quê?!”, perguntou o homem furioso.

“Calma, cara! Calma! Eu to de boa. Só quero ajudar. Se quiser eu pago a sua passagem”, respondi já me preparando para o pior.

O homem lançou um olhar furioso em minha direção, mas, antes que o pior pudesse acontecer, a equipe de fiscalização surgiu e deu fim ao bastardo. Suspirei aliviado. Peguei minhas malas. Entrei no metrô.

Dentro do vagão, todos me olhavam como se eu fosse um animal raro exposto numa jaula do zoológico. Uma sensação familiar para mim, que sempre me achei estranho e bizarro. É São Paulo me dando boas-vindas!, pensei. Nada que um carioca não esteja acostumado. Pelo visto, vou me sentir em casa.

Felipe Attie

Um comentário:

  1. Adorei esse texto. Aconteceu parecido comigo: um cara bem apanhado, com pinta de executivo paulistano, caiu entre o vão da estação e o ônibus BRT. Enquanto ele estava entalado estrebuchando machucado ninguém ergueu a cabeca. Tinha um homem forte do meu lado e outro bem na frente do cara e ninguém se moveu. Somente quando fui ajudar e gritei - pois não conseguia puxá-lo - é que um garoto despertou do transe e foi ajudar.
    Depois, o cara saiu mancando e agradecendo, nessa hora falei "de nada" e desviei o olhar. Segui chorando até o trabalho e adivinha? Ninguém olhou pra trás. Somos todos zumbis.

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