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VALE O QUE TÁ ESCRITO

“Você tá ligado que o nome disso é bolacha, né?”, perguntou uma garota me oferecendo um pacote de biscoitos.

“Tava demorando”, resmunguei.

“Tava demorando o que?”

“Pra vocês, paulistas, levantarem essa discussão idiota.”

“Idiota é quem chama bolacha de biscoito!”, debochou.

Expliquei que, na verdade, ambos os termos estão corretos. Porém, a palavra biscoito surgiu primeiro na língua portuguesa, o que a torna mais relevante. “É como se a bolacha tivesse acabado de entrar no ônibus e já quisesse sentar na janela. Já o biscoito, por ser mais velho, tem lugar preferencial”, brinquei.

“Claro que não, meu! Cê tá louco! O nome disso é bolacha!”

“Pode ser”, concordei. “Mas também é biscoito.”

“Biscoito é lá no Rio! Aqui em Sampa é bolacha!”

Eu já estava farto daquela disputa inútil. Estava a ponto de pegar o pacote de bolacha, biscoito, seja lá qual fosse o nome daquela merda, e atolar na goela da garota na esperança de fazê-la calar a boca.

“Qual o seu nome?”, perguntei.

“Bruna.”

“Mentira.”

“Como assim, meu? Meu nome é Bruna!”

“Não é.”

“Claro que é! O carioca não tá acreditando que eu me chamo Bruna!”, ela comentou, cutucando a amiga.

“Então me prove que seu nome é Bruna.”

“Como assim? Cê tá louco, mano?!”

“Só quero que você me prove que seu nome é Bruna.”

Ela abriu a bolsa e puxou a carteira de motorista.

“Tem razão, seu nome é Bruna.”

“Falei pra você!”, respondeu ela, debochando. “Cê é bem louco, mano!”

“E isso se chama biscoito”, afirmei, apontando para embalagem em suas mãos, onde estava escrito: Biscoito sabor chocolate com recheio sabor baunilha.

Felipe Attie

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