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CADÊ VOCÊ, TIA INÊS?


Toda vez que ouço Rock n' Roll, assisto a filmes hollywoodianos ou tenho minha ignorância despida por algum termo em inglês, eu sou assombrado pela lembrança de Tia Inês.

Tia Inês foi minha professora de inglês durante grande parte da minha vida escolar. Suas aulas eram ministradas sempre às sete horas da manhã, quando eu ainda estava tirando os restos de remela ressecada dos olhos, o que não favorecia em nada a minha concentração — que, diga-se de passagem, nunca foi digna de aplausos. Durante suas aulas, enquanto a turma se deliciava, traduzindo músicas e balbuciando palavras e gírias da terra do Tio Sam, eu me divertia lendo as tirinhas que já vinham traduzidas e impressas no jornal que eu roubava do meu tio. “Inglês pra quê?”, era a pergunta que, como uma Fênix, renascia em minha mente todas as manhãs de terça-feira.

Nunca tive saco pra aprender essa língua que todos dizem ser fácil, prática e funcional. Na minha opinião, o inglês tem sua suposta praticidade dificultada pela pronúncia. Não consigo me entrosar com todos os “ús” com sons de “ás”, “phs” com sons de “efes”, e assim por diante. Outra barreira que surge na minha compreensão são os verbos, todos atemporais, variando de acordo com o sentido e intenção do emissor. Pra falar inglês é preciso pensar em inglês, daí vem minha dificuldade. É por essas e outras que eu voltei meus esforços para a Língua Portuguesa. Assim, eu me divertia pra valer lendo os quadrinhos e, de quebra, conquistava boas notas em redação o que, mais tarde, me ajudou a conquistar meu primeiro emprego no competitivo mercado de trabalho. Mas nem tudo foram flores...

Anos depois de Tia Inês sumir da minha vida, eu comecei a trabalhar como redator numa agência de propaganda, onde tive meus ouvidos bombardeados por termos estrangeiros cruciais para a sobrevivência nesse meio profissional. “Nosso deadline está estourado!”; “vamos focar no briefing”; “temos que investir no nosso target” e “o mercado teve um up!” foram algumas das sentenças que me fizeram lembrar de Tia Inês que, com o tempo, passou a assombrar minha vida.

Acredite, eu sempre vejo o espectro de Tia Inês parado em frente a um curso de idiomas. Quando assisto filmes, por exemplo, e as legendas passam rápido de maneira que não consigo acompanhar — o que acontece com frequência —, instantaneamente a face da Tia Inês assume o rosto do personagem e debocha da minha cara de babaca. É assustador! No filme Poltergeist, lá estava Tia Inês gritando “Come to light, Carol Anne!”; em O Retorno de Jedi, Tia Inês disse “Luke, I am your father”; em O Sexto Sentido, eu vi Tia Inês revelar “I see dead people”. Minha única solução foi evitar ir ao cinema e só assistir desenhos dublados.

Como se não bastasse, ainda sou obrigado a lidar com o maldito pesadelo que perturba meu sono rotineiramente, onde eu estou num sombrio labirinto, aparentemente sem fim, pedindo informações a sujeitos encapuzados que me respondem em inglês alguma coisa parecida com “The exit is that way”. Então eu começo a chorar de desespero e a berrar em vão: “Cadê você, Tia Inês? Tia Inês, me ajude! O que eles estão falando? Tia Inês! Socorro! Cadê você, Tia Inês?”.

Felipe Attie

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