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NO CARNAVAL PODE TUDO, MENOS FICAR SOZINHO


Uma das lembranças mais agradáveis que tenho do carnaval vem da época em que eu andava até a praça do bairro onde moro, para ver as turmas de bate-bola se exibir e arrumar confusão. Mas isso foi há muito tempo, quando eu era apenas uma criança ingênua e maravilhada com os encantos dessa data que hoje me enoja. Não tenho nada contra o feriado em si, mas sim, contra as pessoas que fazem dele uma corrida desenfreada rumo ao sexo e a embriaguez. Um bando de gente enrustida que aguarda ansiosa por esses quatro dias de folia na esperança de soltar as amarras e viver um resquício de felicidade patrocinada por marcas de cerveja, megaempresários, o tráfico e o jogo do bicho. Afinal, de onde você acha que vem boa parte da verba que financia os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro?

A mídia passa o ano todo combatendo o tráfico e os jogos ilegais, exibindo reportagens sobre viciados e realizando campanhas tolas e banais contra as drogas. Mas, durante o carnaval, essa mesma mídia transmite o desfile das escolas de samba, ostentando toda a magia financiada por atividades nefastas e criminosas. Se o carnaval gera uma enorme fonte de renda para a cidade — o que de fato acontece —, os governantes deveriam agradecer aos traficantes e donos de bancas de jogo por ajudarem a financiar boa parte dessa festa. Então, se você curte os desfiles das escolas de samba, mas faz parte desse bando de babacas que combatem as drogas e tudo mais que é midiaticamente incorreto, acho que tá na hora de rever seus conceitos, meu chapa. Mas o que estou dizendo não deve ser levado em consideração. Esqueça! Ignore! Só mesmo alguém rabugento como eu para não se render aos encantos despudorados dessa data tão mágica e libertina. No carnaval pode tudo. Tudo mesmo! Falo por experiência própria.

Há alguns anos, eu trabalhei como repórter de rua de uma conhecida rádio carioca e fiquei encarregado de cobrir o carnaval no bairro da Lapa e adjacências. Durante meu expediente, além de presenciar inúmeros absurdos praticados pelos foliões, eu cheguei ao ponto de beber cerveja com policiais dentro de um batalhão militar, enquanto assistíamos ao desfile. De hora em hora, um policial saía para fazer a ronda e voltava com um isopor cheio de latas de cerveja. Na época, eu bebia bastante e, em momento algum, questionei sua conduta policial. Muito pelo contrário! Se ele estava ali para servir a sociedade, eu não tenho do que reclamar, fui muito bem servido! Bebi o suficiente para o meu corpo rejeitar cerveja. Quanto à segurança e a ordem social, quem se importa com isso no carnaval? Se você tá pensando em ir às ruas e espera estar amparado é melhor que fique em casa.

Recentemente, uma amiga me disse que eu faço parte do grupo que não deixa a alegria passar. “Não consigo entender como alguém consegue não gostar de carnaval!”, disse ela, indignada. “Você não deixa a alegria passar!”

“O fato de eu preferir ficar em casa, não significa que eu não seja feliz! Muito pelo contrário, eu consigo viver muito feliz sem ninguém. Sem você, principalmente”, respondi.

“Estúpido!”, esbravejou ela, entre os dentes.

Infelizmente, essa foi maneira que encontrei pra encerrar o assunto. Pois, se existe uma coisa que eu aprendi é que é muito difícil entenderem que você consegue ser feliz sozinho. Em tempos de carnaval então, isso é praticamente impossível.

Felipe Attie

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