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A VIZINHA QUE EU NUNCA CONHECI

Fui um desses adolescentes tardios. Meu primeiro beijo foi aos 15 anos e minha primeira transa aos 20. Mas, em compensação, depois que comecei eu não parei mais. Como alguém que se descobre aos 40 e fica milionário por conta disso, depois que fui apresentado aos prazeres carnais, nunca mais consegui olhar para uma mulher sem imaginá-la nua e transando. Mas isso, como eu disse, começou a ocorrer no fim da minha adolescência, quando todos os meus amigos já estavam cansados de pegar doenças venéreas.

Lembro que na escola, na hora do intervalo, enquanto meus colegas estavam interessados nas alunas de saias curtas, eu estava ocupado demais lendo um exemplar da revista Wizardo guia definitivo sobre quadrinhos!, dizia seu slogan —, ou o novo livro de tiras do Calvin & Hobbes. Não preciso dizer que eu era considerado uma aberração e que as meninas, na melhor das hipóteses, me chamavam de “esquisito”.

Minha sexualidade só foi despertar quando meu pai instalou TV a cabo na nossa casa, o que me permitia saborear alguns minutos de pornografia todas as noites através de um canal que direcionava sua programação noturna a um público menos conservador. Após descobrir os prazeres proibidos, eu automaticamente me deixei viciar e não tardou para que minha vida começasse a girar em torno de uma simples punhetinha.

A aventura se iniciava por volta da meia-noite, quando eu sintonizava na MTV para assistir à Beavis and Butthead e rir um pouco das idiotices tramadas pela dupla. Em seguida, eu subia alguns canais e dava início ao que batizei de A Hora da Punheta, o momento do dia em que eu me sentia um homem maduro, com o botão MUDO do controle remoto pressionado para não correr o risco de acordar alguém. Afinal, quando se está batendo umazinha, a última coisa que você quer é ser flagrado pela sua mãe e ter que lhe dar alguma desculpa do tipo “preciso de lenços, estou bastante encatarrado”.

Eu vivi fortes emoções ao lado das Garotas Penthouse. Minha noite terminava por volta das 4h da manhã e, considerando que meu pai me acordava às 6h para ir ao colégio, não preciso comentar que dormir durante as aulas se tornou um hábito comum e que, consequentemente, minhas notas caíram ainda mais do que a média medíocre que eu mantinha com total descaso.

Eu chegava ao colégio dopado de sono, com a vista tão vermelha quanto meu boletim, mas sentindo-me mais interado ao grupo. Com o tempo, passei a olhar para as meninas da classe e avaliar se levavam jeito para o universo pornô. Lembro que a mais talentosa era Ticiane Oliveira, que usava uma saia do tamanho de um palmo e andava rebolando de maneira a deixar à amostra uma polpa de bunda precoce. Também tinha uma professora de ciências que sofria de elefantíase de quem eu sempre ria, imaginando como seria um filme onde a protagonista ganhasse a vida trepando com os excêntricos clientes do circo de horrores onde trabalhava.

Nessa época, eu e mais dois amigos, Pedrinho e Papic, costumávamos alugar filmes nos finais de semana. O proprietário era um sujeito legal, que sempre usava um boné da Marlboro e nos deixava levar de graça os filmes que sempre eram ignorados pelos clientes. Pagávamos o aluguel de um filme e levávamos meia dúzia de outros dos quais nunca tínhamos ouvido falar. Foi assim que eu entrei em contato com filmes policiais finlandeses, romances iugoslavos, documentários chilenos e descobri o que minha vizinha fazia para ganhar a vida...

***

“Só acredito vendo!”, foi o que respondi a Pedrinho e Papic após me dizerem que alugaram um filme pornô que tinha minha vizinha como parte do elenco. Até então, a imagem dela trepando adoidado e berrando “Me foda! Me foda!” era uma cena que se passava apenas na minha cabeça.

“É verdade, cara!”, disse Pedrinho eufórico.

“O filme é incrível!”, confirmou Papic.

Olhei friamente para ambos tentando me convencer do que acabara de ouvir, mas nada me fazia crer naquela história. Nada! Talvez, o simples sentimento de inveja por ter sido o único a não ter assistido ao filme foi o que me tornara tão cético. Lembro que eu tinha passado o final de semana na casa dos meus avós e quando retornei, eles já tinham devolvido o filme. Sempre amei meus avós e ir a casa deles sempre foi uma excelente diversão, mas nunca me perdoei por ter aceitado o maldito convite de me divertir ao lado deles justamente naquele final de semana.

Na manhã seguinte, matei aula e parti em disparada rumo à locadora. Chegando lá, eu tive o que posso chamar de A Maior Decepção da Minha Vida. As portas estavam fechadas. Esperei por duas horas e nem sinal de um boné da Marlboro. Até que o chinês, dono de uma lanchonete famosa por vender pastéis fedidos como bueiro, veio até mim dizendo:

Eli via-jô.

“Quê?”

Eli via-jô!”, repetiu o chinesinho miúdo.

Como?”, tornei a perguntar, mordendo os lábios para prender o riso.

“Eli”, disse o chinês, apontando para a locadora. “Foi! Fexô! Via-jô!

Após grande esforço para desvendar o seu rebuscado dialeto, consegui entender a mensagem. Para a minha infelicidade, o sujeito do boné da Marlboro havia viajado e não dera previsão de retorno. Nos finais de semana seguintes, eu voltei à locadora na esperança de encontrar as portas abertas e um boné da Marlboro atrás do balcão, mas foi em vão. Misteriosamente, a locadora nunca mais voltou a funcionar.

Conforme fui crescendo, meu interesse por filmes pornôs foi diminuindo gradativamente. O cúmulo foi quando eu peguei no sono no meio de uma punheta e acordei assustado com os latidos do nosso cachorro. Olhei para o meu pau, murcho e lambuzado na palma da mão e, exatamente como um jogador de futebol que decide pendurar as chuteiras, conclui que era hora de parar.

Culpo a falta de criatividade dos roteiristas. Com o tempo, você percebe que filme pornô é tudo igual: homem e mulher começam a se tocar; mulher chupa homem; homem mete na mulher; mulher volta a chupar o homem; homem ejacula na boca da mulher que tenta esconder a careta de nojo forçando um sorriso amarelado; fim. Você pode assistir a milhares de filmes que dificilmente encontrará novidades.

Enfim, muita coisa mudou desde então... A locadora virou uma loja de informática, depois, uma loja de peixes e da última vez que soube, era uma loja de roupas. Na verdade, nem existem mais locadoras e os filmes em VHS foram substituídos pelo DVD, que já estão evoluindo para Blue Ray. Minha vizinha se mudou sei lá pra onde e a velhinha que mora agora na casa, não deve sequer se lembrar do significado da palavra boquete. Por outro lado, o chinês permanece fiel vendendo seus pastéis fedidos e até hoje, durante a madrugada, enquanto zapeio os canais da TV a cabo, tenho esperança de encontrar uma vizinha que morou bastante tempo ao meu lado, mas que eu nunca tive o prazer de conhecer.

Felipe Attie

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