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EU QUERIA SER O BATMAN


Nos tempos de colégio, sempre que a professora de ciências abarrotava a lousa com fórmulas incompreensíveis, ao invés de me concentrar no conteúdo que estava sendo ensinado, eu mergulhava na seguinte questão: “se eu pudesse ser um super-herói, qual escolheria?”. Eu passava a aula toda avaliando os prós e contras da enorme lista de poderes à minha disposição, tendo como parâmetro os personagens dos quadrinhos, as leis da física e as fórmulas químicas ensinadas durante a aula.

Imaginava-me num desses restaurantes self service, onde o cardápio constava de pílulas mágicas, velocidade supersônica, invisibilidade, força extrema e tantas outras habilidades. Se eu voasse, economizaria uma boa grana em passagens de avião. Por outro lado, com velocidade supersônica, eu faria história no atletismo e também economizaria no ônibus e metrô. Também conseguiria um bom dinheiro sendo invisível e encantando o mundo com meu misterioso truque de mágica batizado de teletransporte. E assim, eu passava horas em busca de habilidades que pudessem ser capitalizadas e gozadas a meu bel-prazer.

Nunca fui adepto da ideia de usar um collant ridículo, vestir a sunga por cima das calças e combater o crime. Sempre achei isso ridículo. Durante meus lapsos imaginários, no auge da minha ganância pré-adolescente, eu só queria saber de uma coisa: ficar rico! Não me preocupava com o aumento do índice de violência, desde que minha conta bancária aumentasse proporcionalmente. Meu interesse era totalmente financeiro. Sendo assim, após inúmeras aulas desperdiçadas com reflexões e notas baixas, conclui que não só corria o risco de ser reprovado como também, de que eu gostaria de ser o Batman, o playboy mais temido do planeta!

A gente tem que reconhecer que o cara é um filho da puta sortudo. Ok, ele perdeu os pais quando criança... Rolaram uns traumas e tal... Mas isso é algo que, cedo ou tarde, vai acontecer com todos nós. Você querendo ou não, seus pais vão morrer! A única diferença é que, se você tiver sorte, eles vão te deixar uma fortuna de herança junto a todo um complexo empresarial bastante influente na sua cidade natal — que por sinal tem um nome bem mais legal do que Rio de Janeiro ou Nova Iorque. Daí, você pega todos esses privilégios e regalias e faz o quê? Vira o Batman!

“Quer saber, eu vou torrar uns trocados, comprar uns equipamentos bacanas e combater o crime. Chega dessa vidinha de orgias e viagens ao redor do mundo! Alfred, eu quero um carro assim!”, diria, apontando para um desenho feito na época do colégio. Como uniforme, optaria pelo pretinho básico, acompanhado de um elegante cinto de utilidades com celular, iPad, GPS, wi-fi, mp3 e tudo mais que pudesse garantir minha diversão durante as noites de insônia.

Se eu fosse o Batman, eu teria tanto dinheiro, mas tanto dinheiro, que eu contrataria o Hulk pra ser meu guarda-costas e compraria o jornal Planeta Diário só para manipular os fatos a meu favor. Eu poderia ser patrão do famoso homem de aço! Imagine a cena: segunda-feira, o Super-Homem entra na minha sala dizendo, “desculpe o atraso, Senhor. Eu tive uma noite péssima. Enfim, é o Lex Luthor. O cara tá terrível. Prometo que não acontecerá de novo, Senhor”. Eu — ou seja, o Batman! —, com minha voz máscula de homem-morcego, diria “é bom mesmo que isso não se repita. Mais um atraso desse e você tá na rua!”. Talvez, eu comprasse também o Clarim Diário, só para ter o prazer de olhar as fotos tiradas pelo Peter Parker e gritar “Lixo, lixo, e lixo! Além do mais, Peter, eu sei muito bem quem é o Homem-Aranha, espertinho. Comigo, esse truque não cola. A partir de hoje, quero fotos da Mulher-Maravilha nua em seu avião invisível!”. E assim, eu levaria uma vida divertida e poderosa, visando meus interesses, satisfazendo minhas vontades e prendendo uns bandidinhos de vez em quando só pra manter a pose de herói.

O Batman, com certeza é o melhor entre todos os heróis. Pra que correr na velocidade da luz, se eu posso pegar meu jatinho particular e ir para onde quiser, desfrutando de mulheres e drinques à bordo? Pra que ter força extraordinária, se eu posso contratar centenas de capangas para dar fim em qualquer engraçadinho que se meta à besta comigo? Pra que ser invisível, se o meu dinheiro me põe em todos os lugares? Pra que ser imortal, se esse mundo vai acabar uma hora ou outra? Enfim, se eu fosse o Batman, poderia ter o que quisesse sacando o meu batcartão de créditos aceito em todos os lugares.

Felipe Attie

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