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MEU MANINHO EXTRATERRESTRE

Quando minha mãe disse que eu ia ter um irmão, minha reação foi de total entusiasmo. Afinal, é sempre bom ter alguém mais novo por perto para que você possa mandar buscar um copo d’água ou simplesmente pôr a culpa quando a barra pesar. Então você se enche de expectativa, mas acaba se frustrando. Pois, o que era pra ser o seu novo capataz, tão logo aprende a chorar, já rouba o seu lugar de príncipe. O golpe é duro! Mas bem-vindo à vida em família! É assim que as coisas funcionam.

O nome da criaturinha que estava por vir ficou a meu critério. “Marcelo se for menino, Bianca se for menina!” sentenciei. Veio um menino. Mas isso pouco importou, pois acabei apelidando-o de Maninho. O apelido pegou e hoje, a não ser em ambientes onde é necessário andar de terno e gravata, todos o chamam assim.

Bastou Maninho começar a andar para eu perceber que todos os meus planos de dominar a classe inferior da família estavam seriamente ameaçados. Nunca vi ninguém aprender nada com tamanha facilidade como meu irmão. Durante nossas brincadeiras e discussões, o moleque demonstrava uma superioridade assustadora sobre mim. Enquanto eu mal conseguia abrir as embalagens dos meus presentes, Maninho já consertava seus brinquedos com invejável destreza. Lembro-me da vez em que ele desmontou a máquina de fazer insetos de gelatina que tinha acabado de ganhar, só para tomar notas sobre seu funcionamento interno e quais os circuitos seriam necessários repor, caso houvesse uma pane na produção de alguma lagarta ou mariposa gelatinosa. Seu velocípede sofreu adaptações eficazes para o desempenho em terrenos argilosos e seus patins tiveram seus freios traseiros reforçados para suportar o desgaste causado pelo asfalto. Enquanto isso, eu comemorava por conseguir andar na minha bicicletinha de rodinhas.

A coisa não parou na infância. Conforme Maninho foi crescendo, as suas habilidades avançaram de forma que, na adolescência, seu campo de atuação já englobava hidráulica, carpintaria, siderúrgica, eletromecânica e todo mais um apanhado de conhecimentos necessários para se concorrer a um prêmio Nobel. Enquanto isso, eu passava horas escrevendo e desenhando na esperança de um dia me tornar escritor ou cartunista. O que significa que, se nós dois nos perdêssemos numa selva, só me restaria rabiscar minhas memórias nos troncos das árvores, enquanto Maninho construiria sozinho uma aldeia inteira com sistema de irrigação e tratamento de água.

Tais características me levam a crer que ele seja alguma forma de vida alienígena evoluída que chegou ao nosso planeta e se infiltrou entre nós na forma do meu irmão. Mas o que mais me impressiona nesse ser extraterreno não é a sua facilidade de aprendizado, tão pouco suas inúmeras habilidades, mas sim, a sua extrema capacidade de poluir o meio onde vive. Pois o talento que ele possui para consertar e construir coisas, lhe carece na hora de limpá-las e organizá-las. O que me faz concluir que, caso Maninho seja realmente um ser extraterreno, com certeza ele veio fugido para o nosso planeta após ter levado o seu à ruína.

É fácil saber quando Maninho está em casa. Pois, com certeza, você vai tropeçar em algum talher largado pelo chão, junto dos respectivos restos de comida da sua última refeição. Certa vez, eu tive que sair para um compromisso pela manhã e, quando voltei à noite, perguntei se ele tinha tomado iogurte no café da manhã e comido pão com mortadela no lanche da tarde. Abismado, ele me questionou sobre a exatidão da minha adivinhação. Bastou eu apontar para a pia: lá estava o pote com iogurte ressecado e um pedaço de pão mordido já em estado de bolor.

Na nossa família, eu e meu pai somos os únicos que se incomodam com sujeira e desorganização, enquanto mamãe parece não se importar. Isso me faz acreditar que ela também seja uma forma de vida extraterrena da mesma espécie de Maninho. Pois sempre que eu criticava a sua falta de represálias referentes à bagunça promovida pelo meu irmão, tudo que ela dizia era “deixa seu irmão comigo, que o que é dele tá guardado!” Como assim, o que é dele tá guardado? Será que ela sempre soube que Maninho é um ET e tem uma nave interestelar guardada para que ambos possam fugir após levarem nosso planeta à ruína? E se essa nave existe, onde ela estaria guardada? Pois se eles a guardam com o mesmo capricho que guardam seus demais pertences, com certeza ela deve estar entulhada debaixo da cama ou largada atrás do sofá, esperando o dia em que será encontrada por mim enquanto limpo a casa.

Felipe Attie

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