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CARTA À ALANIS

Querida Alanis, hoje eu sonhei com você. Sim, você estava se apresentando no quintal da minha casa. Era um show pequeno, até porque, meu quintal não cabe muita coisa além da minha moto, uma bicicleta sem rodas e a máquina de lavar. Não sei dizer se o show estava bom. Mas sei, com toda certeza, que você estava linda, mesmo com essa carinha de quase-síndrome-de-down que você tem (acredite, cinco minutos a mais no útero da sua mãe seria o tempo necessário para você desenvolver mais um cromossomo 21). Mas não leve isso como um comentário pejorativo. Eu gosto de pessoas estranhas. Reconhecê-la como uma delas é o mesmo que assumir que você me causa boas ereções.

Como eu disse: você estava linda. Linda demais. Eu gostava da maneira como você me olhava. A cada música, você lançava um olhar de quase-down em minha direção. Eu gostava. Apesar de ser comprometido, eu gostava pra valer. Num dado momento, você chegou a fazer uma pequena declaração ao microfone e todas as seis ou sete pessoas que lotavam meu quintal olharam para mim com cara de “isso que ela disse foi pra você?”. Mas eu não me lembro do que você disse, assim como não me lembro de quase nenhuma de suas músicas. Pra ser sincero, eu nem gosto delas. E então, o pior aconteceu...

O palco desabou. Da cozinha, onde eu estava pegando cerveja, só escutei o barulho. Fui ver o que tinha acontecido e encontrei você caída. Todas as seis ou sete pessoas que lotavam meu quintal estavam ao seu redor vendo seu corpo levemente ferido, na verdade, era apenas um ralado no joelho e outro no cotovelo. Eu te peguei no colo, você olhou para mim e abriu um lindo sorriso, com sua boquinha de quase-down. Eu me derreti! Levei você até meu quarto e cuidei dos seus ferimentos com um remédio que estava posicionado bem em cima da minha cama, como se esperasse pelo seu tombo. Você perguntou se ia arder e eu disse que não. Mas ardeu. Você pediu para eu assoprar e eu assoprei. Você sorriu com o seu risinho de quase-down e permanecemos um bom tempo apenas nos olhando, encantados um com o outro. Você estava linda.

Então eu peguei minha gaita e toquei a única música sua que conheço, mas que também não sei o nome. Você gostou e perguntou se eu não queria acompanhá-la na sua próxima turnê. Disse que eu seria um bom músico de apoio. Eu recusei. Afinal, eu sou comprometido e sabia muito bem quais eram suas intenções com esse convite. Você pareceu triste, mas entendeu. Enfim, nós saímos do quarto e todas as seis ou sete pessoas que lotavam meu quintal aguardavam ansiosas à espera de notícias.

Você teve que partir. Perguntei se voltaríamos a nos ver e você respondeu que sim. Em breve, você voltaria ao meu quintal para me visitar. Mas dessa vez não faria show. Após o incidente, você decidira não se apresentar mais em lugares sem infraestrutura adequada. Eu compreendi. Trocamos mais alguns olhares e nos beijamos. Você estava linda.

Então você partiu e eu continuei no meu quintal, acompanhado das outras seis ou sete pessoas e sem saber uma única música sua.

Felipe Attie

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