Páginas

FOI ASSIM...

Ela estava em silêncio, sem roupas, debruçada na janela. Muda e nua. De costas para mim. De frente para a rua. Eu permanecia quieto, apenas observando o contraste que sua presença causava no cenário a minha frente. Era fim de tarde. Céu nublado, meio cinza. Nuvens opacas embaçavam a paisagem cuja única presença viva era representada pelo seu corpo de pele morena, seios pequenos, pernas roliças e bunda redonda. Eu permanecia quieto, apenas observando o contraste promovido pela sua presença e repassando na cabeça como tudo aquilo havia começado...

Reparei nela, logo assim que entrei naquela maldita espelunca. Não apenas porque nossas vidas haviam se cruzado em certo ponto do passado. Mas, também, pelo fato de ela estar ainda mais bela. É a garota da faculdade, lembrei. Ela continua uma graça!, concluí surpreso. Vestido curto; tênis fodido; mochila encardida; cabelo preso com um coque despojado; e nada de maquiagem. Ponto positivo. Nunca gostei de mulher que se esconde. Ela estava acompanhada de uma amiga, sentada numa mesa à direita do meu campo de visão. Não era a única mulher bonita daquele lugar, mas, sem dúvida, era a mais atraente. Com o tempo, você descobre que beleza, tesão e atração, não necessariamente precisam andar de mãos dadas.

Pedi uma cerveja pra viagem. O dono do bar, velho conhecido meu, foi até o freezer de onde voltou com uma garrafa envolta em gelo. Colocou no balcão e abriu. Fiz uma careta de reprovação e expliquei que não beberia ali. Vou beber em casa, avisei. Então, você vai beber essa comigo, sentenciou ele. Depois você leva a sua pra casa, afirmou, enchendo nossos copos. Nunca fui de dispensar cerveja. Segui o protocolo e entornei a primeira golada goela abaixo.

O que era pra ser uma garrafa virou duas, três, quatro e, como num passe de mágica, um engradado vazio surgiu debaixo da nossa mesa. Olhei para o lado e conclui que, assim como eu, ela estava completamente de porre.  Quis falar com ela, mas não conseguia pensar em nada pra dizer. Ela parecia ter saído diretamente de um videoclipe ou de algum filme de terror adolescente. Ostentava uma simplicidade encantadora. Uma dessas pessoas que não se encontra perambulando por aí. Seu desleixo ao sentar tornava a situação ainda mais excitante. Cada virada de perna deixava sua calcinha à amostra e ela parecia não se importar.

Reparando cada detalhe seu, pude notar uma aliança em seu dedo. Ela deve ter se casado durante o tempo em que morou em Nova York, concluí ao me lembrar da última conversa que tivemos pela internet.  Tal lembrança murchou minhas bolas, mas não freou meu interesse. Levantei para mijar e, na volta do banheiro, munido com a coragem que só o álcool é capaz de fornecer, sentei ao seu lado na mesa e soltei um oi! Quanto tempo! Ela sorriu e concordou, dizendo que havia me reconhecido, logo assim que me viu entrar no bar. Conversamos coisas que não me lembro sobre assuntos sem muita importância. Comentei sobre sua aliança e ela gargalhou, dizendo que nunca foi casada. Nem todo anel no dedo anelar é aliança, disse ela, antes de virar mais uma golada. E, antes que você me pergunte, estou solteira, sentenciou sorridente. Considerando o álcool presente em nossos corpos, isso foi só o que eu precisei ouvir para beijá-la. Ela aceitou minha investida. Foi assim, bem lugar-comum.

Saímos do bar e caminhamos ao léu, apenas rindo e conversando. Estávamos à vontade um com o outro. Eu disse que morava perto dali. Perguntei se ela queria ir pra minha casa continuar a noite de forma mais agradável e confortável. Pra minha surpresa, ela concordou.

Não tem quase nada nesse lugar, ela comentou. Um colchão, uma tevê, uma mesa com meu laptop e uma luminária. Algumas araras na parede sustentavam todo o meu guarda-roupa, composto por meia dúzia de camisetas pretas e duas calças. Alguns livros vagavam perdidos pelo chão. Verdade, respondi. Eu não gosto de acumular coisas supérfluas. Cama não é uma coisa supérflua, ela sentenciou. Mas também não é primordial, afirmei, aplicando uns tapas no colchão.

Sentei frente ao computador em busca de alguma música pra preencher o ambiente. Ela se sentou no meu colo, de frente para o computador, de costas para mim. Deixei que ela assumisse a escolha musical, enquanto acariciava suas costas. Desci a mão até suas coxas e subi levantando seu vestido. Ela me encarou ainda um pouco bêbada. Aproximamos nossas cabeças e nos beijamos. Quando o beijo terminou, estávamos deitados no colchão. Abri suas pernas e, ao me preparar pra arrancar sua calcinha, ela segurou minhas mãos e sentenciou: Quero deixar claro, três coisas. Eu não faço sexo casual. Eu não tomo anticoncepcional. Eu não estou devidamente depilada. Olhei para ela com cara de paisagem e respondi: OK, OK e não to nem aí. Arranquei sua calcinha, ao mesmo tempo em que ela arrancou o vestido e o sutiã, expondo seus peitos pequenos e perfeitos, do tamanho certo pra caber na mão e encher a boca.

Ela estava nua, deitada em cima daquilo que eu chamava de cama. O seu corpo era uma harmonia sobrenatural de ossos, pele e músculos que roubou toda a minha capacidade de ação. Fiquei imóvel, calado, embasbacado. Levantei suas pernas, coloquei-a de costas, de frente, examinei cada parte sua. Que bunda é essa?!, perguntei num misto de surpresa e deslumbre. Você vai me comer ou vai ficar me olhando?, perguntou ela.

Estiquei o braço até a gaveta e puxei uma camisinha. Sempre tive problemas com preservativos. Tentei. Tentei. Insisti. Insisti. Meu pau já estava amolecendo e minha paciência se esgotando. Eu não tinha doença alguma e, caso ela tivesse, não me importaria, pegaria qualquer doença dela de bom grado. Mas posso decidir por mim, não por ela. Então, após perder a luta para a camisinha, eu disse que não precisaríamos transar, caso ela fizesse questão do preservativo. Precisamos sim, foi o que ela respondeu, me puxando, segurando meu pau e encaixando na sua boceta. Meu pau nunca havia entrado num lugar tão apertado.

Após gozarmos, começamos a rir. Nossos sentidos ainda estavam abobalhados por toda aquela cerveja. Estávamos grogues. Seguimos conversando sobre coisas desconexas, contagiados pelo cansaço pós-sexo e a exaustão da embriaguez. Por fim, nos abraçamos encaixando nossos corpos numa cumplicidade prematuramente esquisita e dormimos.

Ao acordar, lá estava ela, em silêncio, sem roupas, debruçada na janela. Muda e nua. De costas para mim. De frente para a rua. E eu permaneci quieto, apenas observando o contraste que sua presença causava no cenário a minha frente.

Felipe Attie

Nenhum comentário:

Postar um comentário

MAIS LIDAS!