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BOA SORTE, GAROTO!


Sempre fui da opinião de que a maior virtude humana é reconhecer suas fraquezas e limitações. Aprendi isso na prática, quando acreditei que levava jeito pra carreira musical. Não me pergunte o que me levou a acreditar ser capaz de levar a vida tocando canções mundo a fora. Meus ouvidos mal diferenciam graves de agudos e se me perguntarem a diferença entre as notas e eu sou capaz de responder “as letras l e f”.

A louca ideia começou numa conversa entre eu, meu primo e um amigo a respeito de montarmos uma banda de rock. Meu primo foi designado o guitarrista; meu amigo, Luizinho, assumiu o microfone — não pelo talento, mas sim pelo simples fato de a ideia da banda ter sido sua —; seu irmão, Samuel, assumiu a bateria; enquanto eu me encarreguei do baixo — também não pelo talento, mas por ser o único instrumento que carecia de músico.

Como já era de se esperar, o meu desempenho como baixista despertava comentários do tipo “você precisa se dedicar muito mais”. Samuel, notavelmente era o mais competente entre nós, demonstrando uma invejável habilidade com as baquetas. Meu primo, que sempre soube tocar violão, não teve dificuldades com a guitarra. Quanto a Luizinho, logo no primeiro ensaio ele nos deu uma prévia do grande problema que teríamos pela frente.

Ninguém convencia Luizinho de que até uma calopsita engasgada cantava melhor do que ele. Eram necessárias apenas duas estrofes de cantoria para facilmente notarmos o cruel destino que nos aguardava. Sempre que iniciávamos os ensaios, as janelas da vizinhança se fechavam em sinal de protesto e os moradores elevavam o som de seus rádios ao máximo numa tentativa desesperada de abafar a voz esganiçada do nosso vocalista. Era horrível presenciar a total falta de coordenação que acometia as cordas vocais de Luizinho, incapacitando-o de cantar qualquer melodia por mais simples que fosse. Nem um tradicional “parabéns pra você” escapava do seu desafinado canto.

Eu sempre acreditei nas habilidades que um ser humano com força de vontade é capaz de possuir. Mas crer no potencial de Luizinho era tarefa impossível até para os mais otimistas e derrubava por terra todo o conceito de fé. Jesus não teve dificuldades em fazer cego enxergar ou multiplicar pães e peixes, mas com certeza cortaria um dobrado caso tentasse fazer Luizinho cantar.

Não bastando a sua incompetência como vocalista, nós éramos forçados a conviver com a sua índole autoritária que insistia na ideia de que ele deveria ser o líder, cantor e único compositor da banda. Só ele podia escrever as canções, que sempre eram carregadas de poemas obscuros e depressivos. Termos como “fundo do poço”, “fé em vão” e “vida vazia” eram acompanhados das palavras “escuridão”, “tristeza” e “ódio”, formando estrofes sombrias não recomendadas para pessoas depressivas ou com tendências suicidas. Se algum dia nós conseguíssemos lançar um álbum, com certeza ele seria proibido pela Igreja. Um dos refrões que Luizinho considerava sua obra-prima dizia: “Estou no fundo do poço sem motivos pra viver. E o inimigo está ao meu lado querendo me enlouquecer!”, com a palavra enlouquecer sendo repetida exaustivamente até que um de nós realmente enlouquecesse e tentasse cortar os pulsos.

Para acabar de vez com qualquer possibilidade de sucesso, ao transpirar, Luizinho exalava um fedor tão intenso que tornava impossível a permanência de qualquer ser vivo dentro de um raio de pelo menos 20 metros ao seu redor. Logo, nos mantermos trancados dentro de um estúdio com a sua presença se mostrou um castigo tão árduo quanto escutá-lo cantar.

“Pra mim, chega! Desisto! É impossível respirar aqui dentro!”, disse meu primo ao sair do estúdio com sua guitarra embaixo do braço, numa cena que se tornaria comum naquela banda. O próximo foi Samuel, que abandonou as baquetas provando que, ao contrário do que muitos pensam, o amor fraterno nem sempre supera todas as dificuldades.

A partir de então a rotatividade de integrantes foi enorme. Eram necessários no máximo três ensaios para que guitarristas e bateristas saíssem da nossa banda como foragidos de um campo de concentração nazista. Não importava o quanto entusiasmado estivessem, uma hora ou outra, todos acabavam pulando fora daquele barco que estava destinado ao naufrágio. Todos menos eu, que acabei me tornando imune aos grunhidos e resmungos que Luizinho insistia em chamar de canto.

Durante um bom tempo, eu fui para Luizinho o que Sancho Pança foi para Dom Quixote e fazer parte daquela loucura tornou-se uma questão de solidariedade. Mas, mesmo eu não me importando com todo aquele caos em que estava metido, era cada vez mais difícil enxergar uma luz no fim do túnel. Até que minha imunidade se esgotou e eu não tive escolha senão largar meu amigo com seu amontoado de composições sombrias e ritmos desengonçados, prometendo para mim mesmo que, a partir de então, minha única relação com a música seria mantida por meio de sites ilegais de download.

Anos mais tarde, eu encontrei Luizinho na fila do banco com uma aparência saudável, bem diferente do semblante de zumbi que sempre estampava sua face. Em meio à conversa, ele disse que estava dando aulas de radiologia numa faculdade e que ficara noivo. Fiquei feliz com a notícia. Mas antes que eu pudesse sorrir de satisfação, meus ouvidos foram informados pela sua desafinada voz, que ele havia comprado uma guitarra e estava com uns caras fazendo um som. Tratei de me despedir às pressas, em busca de um local distante o suficiente de um convite para integrar sua nova banda.

Ele deve ter me achado louco quando eu lhe disse “Boa sorte, garoto!” e em seguida saí correndo, dizendo que havia esquecido a luz da cozinha acesa. Pouco me importa. Tudo que eu quero é me manter longe desse tipo de pessoa, que parece jamais desistir dos seus sonhos.

Felipe Attie

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