O MAIS PRÓXIMO DA IRLANDA

Recentemente, eu descobri que os caroços que habitam minha mão direita atendem pelo nome de Contratura de Dupuytren: uma doença, moléstia, anomalia ou como preferir chamar, que acomete a palma da mão e os dedos com o surgimento de nódulos fibrosos. Sei que pareço um médico falando, mas é que eu já li tanto sobre isso, que me sinto habilitado a prestar consultas. O que me parece uma boa ideia. Afinal, eu preciso começar a procurar outra fonte de renda, considerando o fato de que meu ortopedista disse que a tendência é que, conforme a progressão da doença, meus dedos se dobrem permanentemente, fazendo com que minha mão fique semelhante a uma garra.


“Uma garra?!”, perguntei surpreso.


“Isso mesmo”, concordou o médico. “Conforme os nódulos crescem, surgem cordões fibrosos que retraem os tendões dos dedos e fazem com que eles se dobrem.”


Permaneci um tempo em silêncio, encarando minha mão e imaginando o estilo de roupa que precisarei usar para combinar com minha mão de garra. Algo parecido com pirata, talvez.


Busquei imagens na internet e não gostei do que encontrei: uma sucessão de mãos tortas e enrijecidas, similares àquelas mãozinhas de plástico presas a uma vareta que as pessoas usam para coçar as costas. Se for isso que o futuro me reserva é preocupante. Ainda mais, levando em conta que sou tatuador. É bom mesmo eu encontrar outras formas de ganhar dinheiro ou torcer para que clientes pouco exigentes, dispostos a carregar pelo resto da vida uma tatuagem de qualidade duvidosa feita por um tatuador com mão de garra, cruzem o meu caminho.


Outras informações que obtive do meu ortopedista sobre essa tal Contratura de Dupuytren, incluem que ela tem predileção por homens acima dos quarenta anos e que coisas como alcoolismo, tabagismo, diabetes e epilepsia favorecem o seu surgimento. Eu não fumo e, até onde eu sei, não sou epilético. Mas tenho quase quarenta, sou diabético e mantenho uma relação íntima com o álcool. Portanto, eu me enquadro em quase todas as características do público alvo dessa doença. Ainda segundo meu ortopedista, entre os homens afetados, a maior parte é composta por irlandeses. “Essa doença tem o histórico de afetar irlandeses”, disse ele, olhando-me por cima dos óculos aro de tartaruga. Ele perguntou se tenho descendência irlandesa e respondi que não, mas assim que meus dedos atrofiarem eu vou tentar tirar meu visto.


A forma como ele descreveu meu diagnostico, utilizando termos como “histórico irlandês”, “condição rara” e “causas desconhecidas”, fez eu me sentir especial, como se eu fosse bom o suficiente para ser escolhido por uma doença tão seletiva ou tivesse passado no teste de habilidade específica de um concurso muito concorrido. Senti vontade de sair do consultório avisando a todos que cruzassem meu caminho sobre a minha doença rara, igual a uma mãe orgulhosa do filho aprovado no vestibular.


“Parece que vai chover”, diria alguém olhando para o céu.


“Espero que não. Porque eu sofro de Contratura de Dupuytren e não consigo segurar o guarda-chuva”, eu comentaria, mostrando minha mão em forma de garra.


A pessoa olharia desconfiada e eu começaria minha palestra sobre minha enfermidade rara, cheia de informações irrelevantes para todos aqueles que possuem mãos saudáveis.


Mas meu momento de celebridade terminou logo assim que saí do consultório médico e fiz uma busca na internet. O Google me disse que essa é uma doença comum, que afeta muito mais pessoas do que meu ortopedista imagina. Apesar de fatores genéticos favorecerem seu surgimento, sua causa continua sendo um mistério pra medicina. Contrariando o laudo do meu ortopedista, descobri que existem tratamentos que podem retardar ou até mesmo encerrar seu avanço. Porém, o que mais me deixou surpreso foi que, durante minha pesquisa, o Google não me mostrou nada relevante que comprovasse o “histórico irlandês” citado pelo meu médico. De fato, trata-se de uma doença que atinge mais homens do que mulheres e o alcoolismo é um fator agravante. Mas não encontrei nada que dissesse que a maioria desses homens são cachaceiros irlandeses. De onde meu médico tirou essa informação? Será que ele inventou isso? Mas por que ele faria uma coisa dessas? Que tipo de médico mente para o paciente? Será que, compadecido com a minha possível aposentadoria precoce por invalidez, ele tentou amenizar minha situação fazendo eu me sentir, de certa forma, especial?


Fechei o laptop e encerrei minha pesquisa decepcionado, sentindo-me apenas uma pessoa comum diagnosticada com uma doença qualquer. Eu estava, acima de tudo, frustrado por reconhecer que, provavelmente, a Contratura de Dupuytren era o mais próximo que eu chegaria da Irlanda.


Meus nódulos de estimação!

Felipe Attie

NÃO CONCORDO COM O PAUL

Estou aqui, escrevendo idiotices, ouvindo Beatles e me alimentando de café. Afinal, nada mais vai me fazer sentir do mesmo jeito que eu era antes de estar aqui, escrevendo idiotices, ouvindo Beatles e me alimentando de café.

As coisas estão cada vez mais absurdas. As pessoas estão enlouquecendo num ritmo assustador. Nada mais me surpreende. Se tem uma coisa que essa pandemia me mostrou é que somos capazes de cavar cada vez mais fundo a nossa própria cova. Estamos caminhando rumo à insensatez.

Tem aquela galera que diz que o problema do mundo é a falta de amor. Não concordo. Não acho que a ausência de amor seja responsável por tudo isso. Nem acho que tenha algo de errado com o mundo. O problema tá no ser humano. O mundo tá de boa. Nós é que estamos fudidos. Talvez, não pela falta de amor, mas por esperar muito dele.

Não sei qual foi o idiota que decidiu vincular o amor ao coração, o órgão vital do corpo humano. Acredito piamente que, se crescêssemos achando que o amor tem a ver com o apêndice, com as sobrancelhas ou com qualquer outra parte dispensável do nosso corpo, criaríamos menos expectativas e seríamos mais felizes.

Paul McCartney disse, um dia, que o amor que você dá é igual ao amor que você recebe. Também não concordo. Acho que as pessoas amam na esperança de serem amadas da mesma forma, mas poucos alcançam tal objetivo. Todo mundo gostaria de receber da pessoa amada aquilo que faz pela pessoa amada. No fundo, todos nós esperamos que a justiça afetiva seja feita. Mas isso raramente acontece e muita gente acaba frustrada e com dificuldade de aceitar. Acho que o aumento de crimes passionais confirma essa minha opinião. Portanto, esse papo de que o amor que você dá é igual ao amor que você recebe, Paul McCartney que me desculpe, mas eu discordo.

É um tanto irônico eu discordar do Paul. Pois os Beatles foram uns caras que souberam falar muito bem sobre o amor. Aliás, eu não sei sobre o que mais eles falaram além do amor. As pessoas só falam disso. É amor no cinema, amor na literatura, amor na música. Falamos de amor mesmo quando não falamos sobre o amor. Estamos sempre arrumando um jeito de envolvê-lo em tudo que fazemos. Isso sim é um problema. Afinal, não é por causa do amor que existem ditadores sádicos, fanáticos religiosos ou o prêmio Nobel?

Enfim, deixa pra lá. Não quero mais falar de amor. No momento, eu só quero permanecer aqui, escrevendo idiotices, ouvindo Beatles e me alimentando de café. Afinal, nada mais vai me fazer sentir do mesmo jeito que eu era, antes de estar deixar aqui, escrevendo idiotices, ouvindo Beatles e me alimentando de café.


Imagem: Arquivos Google

Felipe Attie

MORRENDO OITO HORAS POR DIA

Você está no banheiro, parado frente ao espelho. Seu nariz sangra. O sangue escorre pelo seu queixo, seu pescoço e suja a gola da sua camiseta. Você vai trabalhar todos os dias de jeans e camiseta. Muitas pessoas enxergam isso como uma regalia. Quando você começou, também achava o mesmo. Todo emprego, no começo, é interessante. Mas é só questão de tempo, até você olhar ao redor e ver o quanto não quer estar ali. O quanto não quer fazer o que é pago para fazer. É só questão de tempo, até você olhar no espelho e sentir vergonha do seu reflexo.

Aonde foi parar aquele garoto cheio de sonhos? Ele foi vendido. Você trocou quem sonhava ser por um salário que te ilude e uma carreira que te sufoca. Tudo tem um preço. Você sabe muito bem disso. Afinal, é isso que você faz. Você é pago para ditar preços. Você é pago para convencer as pessoas a pagarem por coisas que não precisam.

Sou redator publicitário. Essa é a maneira que eu escolhi para me matar. Crio propagandas para diversos tipos de clientes: dos mais arrogantes, aos mais imbecis. Se você deseja algo que não desejava até ver uma propaganda feita por mim, eu sinto lhe dizer, você tem sérios problemas. Mas obrigado por fazer valer meu salário. O salário que eu tanto odeio receber. Hipócrita? Eu sei que sou.

Dou uma mijada. Sacudo. Lavo o rosto. Atocho meio rolo de papel higiênico nas narinas para estancar o fluxo de sangue que insiste em escorrer. Saio do banheiro.

Atualmente, todos os meus esforços criativos estão sendo usados na campanha de um plano de saúde que acaba de lançar no mercado um centro de tratamento especializado em oncologia. Isso mesmo, câncer. Quem atende essa conta é Monique, a vagabunda que faz coleção de chifres na cabeça do marido. Ela e Marcelo, o dono dessa merda toda, já treparam em todos os cantos possíveis dessa agencia. Principalmente, em cima da mesa de reunião, onde estamos agora, discutindo sobre a campanha de lançamento do Centro de Tratamento e todo o seu maquinário inovador que promete salvar vidas terminais.

Olho o layout feito por Ramon. Na foto, um homem e uma mulher aparecem abraçados numa praia. Eles estão sorrindo. O céu é azul, límpido, sem vestígio algum de poluição; a areia da praia estende-se como um tapete branco impecável; a água do mar é cristalina; o sol é radiante. O clima é de total felicidade e esperança. Uma felicidade medida em megabytes. Uma esperança criada no Photoshop.

“Tô de saco cheio disso!”, resmungo.

“Estamos”, completa Ramon. “Mas aceita que dói menos.”

Ramon é diretor de arte. Passa os dias fazendo layouts e vendo bocetas na internet. Tem decorado na cabeça os nomes de estrelas pornôs e as cores da escala Pantone. Sabe o endereço de todos os puteiros e espeluncas da cidade. É frequentador assíduo, do tipo que paga mensalidade e tem carteirinha de sócio. Pornografia… esse foi o vício que ele escolheu ter.

Toda agência de publicidade é repleta de amargura e infelicidade. Alcoólatras, aspiradores de cocaína, viciados em analgésicos, gente frustrada que gasta fortunas com prazer instantâneo. Aqui é o lugar onde pintores viram designers, escritores viram redatores, músicos viram compositores de jingles e assim por diante. Eu sou um bom exemplo disso. Sonhava ser escritor. Sonhava com minha foto impressa na orelha de um livro. Todos ao meu redor esperavam pelo momento em que estariam na fila da minha noite de autógrafos. Mas o tempo passou e eu desperdicei muitas oportunidades. Então aceitei um emprego que, além de consumir minha vida, me transformou nessa criatura amargurada que só sabe lamentar o tempo perdido enquanto cria slogans para sabonete e pasta de dente.

“Escreve aí, escolha o melhor para a sua saúde.”

“Só isso?”, questiona Monique. “Acho que a gente deveria ser mais otimista, transmitir esperança.”

“Esperança? Esperança? Minha vontade é dizer para esse cara que nada do que ele faça vai salvá-lo”, comento, apontando para o homem sorridente do layout. “Muito menos, torrar a grana que ele juntou durante anos pra pagar a faculdade do filho num tratamento que promete uma cura milagrosa.”

Olho pra Ramon que está desenhando bigodes no rosto da mulher da foto.

“Pouco me importa se esse cara da foto ou se o seu vizinho vai morrer acreditando nesse tratamento. Eu não tenho câncer, mas tenho contas pra pagar!” Enquanto Monique fala e gesticula, seus seios ameaçam saltar do decote. A filha da puta é gostosa! “Você deveria agradecer por ser pago para mentir, a maioria das pessoas faz isso de graça!”

Suas palavras ecoam na minha cabeça. Ela tem razão, a maioria das pessoas mente a troco de nada. Mas não consigo ver as coisas dessa maneira. Estou cansado. Mas, não tenho escolha. Quando se entra nesse ramo é quase impossível sair. Você se vicia num estilo de vida que é quase impossível manter no mundo lá fora, vendendo quadros, por exemplo.

Monique olha para mim, olha para Ramon e sacode a cabeça em negação. “Não sei por que eu ainda perco meu tempo com vocês. Eu não gastei uma fortuna de faculdade para trabalhar ao lado de dois idiotas.”

“Eu nunca estudei”, Ramon rebate. “Por isso não reclamo de trabalhar com você.”

“Eu preciso sair. Tenho reunião marcada com um cliente. Pensem em algo mais emotivo. Precisamos transmitir esperança!”

“O que foi decidido, afinal?”, pergunta Ramon, ao ver Monique sair da sala.

“A mesma merda de sempre… Nada.”

Com o tempo, você descobre que as reuniões de criação só servem para duas coisas. Primeiro: puxar o saco do seu superior, exaltando todas as suas ideias ridículas. Segundo: falar merda, matar tempo, fingir. Fingir que você tem boas ideias. Fingir que você sabe o que está falando. Fingir que está trabalhando. Fingir. Afinal, não é pra isso que você é pago?


Caso queira conferir o resultado dessa história, você pode adquirir o livro físico aqui e o eBook aqui. Espero que se divirta com a leitura, na medida do possível.

EU FARIA MELHOR

Não sou do tipo que questiona a existência de Deus. Sequer penso a respeito. É um tema que não me interessa. Só me pego diante desse dilema, em algumas ocasiões onde tenho certeza de que, caso ele exista, sem dúvida eu faria algumas coisas melhores do que ele. São pequenas situações que me fazem questionar por que determinadas coisas são de determinadas maneiras. Quanto mais eu busco uma explicação, mais eu concluo que, algumas coisas, eu faria melhor que ele.


Certa vez eu estava no cinema e bateu a vontade de mijar. Fiz o que qualquer pessoa faria: esperei o filme entrar naquele ponto de inércia e fui correndo ao banheiro. De pé, frente ao mictório, com o pau debruçado em meus dedos, trinquei o abdômen, expulsando o jorro de mijo as pressas. Após as últimas gotas serem cuspidas, enxuguei com papel higiênico como de costume (sempre fui contra a lambança promovida pelas tradicionais sacolejadas) e, ao fechar a calça de maneira apressada, o zíper beliscou minha piroca. Doeu. Sangrou. Diante da situação, a primeira coisa que me veio à mente foi: “Puta que pariu! Por que o órgão reprodutor masculino é tão expostamente desprotegido?”.


Se eu fosse Deus, isso não teria acontecido. Eu faria melhor por uma mera questão de coerência. Se a reprodução da espécie faz parte de um dos principais pilares da vida, por que deixar a ferramenta masculina tão exposta a acidentes? Na minha versão, o pênis só veria a luz do dia no momento adequado: na hora do sexo. Fora isso, homens seriam esteticamente discretos como as mulheres.


Sempre que me machuco, tenho o hábito de passar os dias seguintes observando o processo de cicatrização. Como uma espécie de fiscal, examino desde o coagular do sangue até o surgimento da camada protetora de casca. Então, lá pelo terceiro dia, sinto a sensação de coceira me alertando de que o processo de cicatrização está no seu auge. É uma obra de arte a forma como o nosso corpo se regenera. Porém, sempre me questiono sobre o porquê desse processo ser tão demorado.


Se eu fosse Deus, faria muito melhor. A começar pela espera. Eu nunca entendi porque precisamos esperar tanto tempo para que nossa cicatrização seja concluída. Você conhece o personagem Wolverine da Marvel Comics? É disso que estou falando. Não estou pedindo um corpo indestrutível, tão pouco a invencibilidade. Gostaria apenas que o corpo humano fosse um pouco mais ágil no quesito cicatrização. Se eu fosse Deus, o band aid não precisaria ser inventado. Afinal, se o homem é a minha maior criação, como dizem por aí, eu não o faria esperar uma semana para se livrar de um simples ralado no joelho.


Porém, nada me faz questionar tanto as decisões tomadas por Deus quanto as referentes ao nosso envelhecimento. Acho uma grande incoerência o modo como nosso corpo se deteriora com o passar do tempo. Penso nisso todos os dias, quando meu filho acorda às seis da manhã cheio de disposição para brincar, enquanto eu mal consigo abrir os olhos.


“Criança é assim mesmo”, comentou o pediatra quando questionado a respeito. “Isso é sinal de saúde.”


“Então eu devo estar muito doente, Doutor. Porque às seis da manhã eu não tenho disposição nem pra respirar.”


“Você não tá doente. Isso também é normal”, afirmou. “Ele é uma criança de dois anos e você é um adulto de quase quarenta. Não tente disputar. Você vai sempre perder.”


É aí que tá o problema. Não existe lógica alguma em uma criança de dois anos que não precisa fazer absolutamente nada, possuir mais energia do que um adulto que é forçado a trabalhar, enfrentar trânsito, pagar boletos... Por que meu filho precisa acordar cheio de energia antes mesmo de o sol nascer? É mais coerente que eu acorde disposto. Afinal, nunca vi um recém-nascido na fila do metrô, reclamando que está atrasado para a reunião. Nunca vi uma criança de dois anos tendo que se dividir entre dois empregos pra poder pagar as contas no fim do mês.


Se eu fosse Deus, com certeza as coisas seriam diferentes. Mas, infelizmente, eu não sou Deus e nada posso fazer a não ser aceitar essas injustiças e dormir. Porque já tá tarde e eu preciso estar disposto amanhã, quando meu filho acordar cheio de energia querendo brincar, enquanto eu mal consigo abrir os olhos.


Felipe Attie

IDIOTAS

Os Idiotas são criaturas que acreditam deter sempre a razão e uma interminável fonte de conhecimento, o que faz com que sejam insuportavelmente arrogantes. Os Idiotas também são criaturas frustradas e, consequentemente, mentirosas. Tais características fazem com que eles estejam sempre contando sobre feitos inacreditáveis que ninguém, além de outro Idiota, é capaz de acreditar.


Entre outras peculiaridades dos Idiotas estão a ausência de senso de humor, a total falta de vergonha na cara, a mesquinharia e o machismo. Todo Idiota é machista, não importa seu sexo. Se o Idiota for homem, ele se acha um exemplo de masculinidade a ser seguido. Ele fala alto pra tentar demonstrar autoridade, grita nos churrascos e diz que beber cerveja é coisa de homem e que música clássica é coisa de viado. Se o Idiota for mulher, provavelmente, ela se casará com um Idiota homem e passará o resto da vida concordando com as idiotices do maridão, enquanto coloca o jantar no forno e executa as outras tarefas domésticas que são consideradas coisas de mulher.


Os Idiotas compartilham a opinião de que os idiotas homens vestem azul e mulheres vestem rosa. Meninos e meninas não podem brincar juntos, homem não chora, mulheres não trabalham e não podem transar no primeiro encontro.


Idiotas também costumam acreditar e revisitar teorias absurdas que foram criadas por Idiotas do passado, fazendo com que a chama da idiotice se mantenha viva através dos séculos. A teoria da Terra Plana e o movimento antivacina são alguns exemplos de idiotices antigas bastante atuais.


Infelizmente, ao contrário do mico-leão-dourado e do jacaré-do-papo-amarelo, os Idiotas não estão em extinção. Pelo contrário, a população de Idiotas está em constante crescimento pandêmico, uma vez que eles se reproduzem através do contato social. Isso mesmo, basta que um Idiota te diga “oi” para que você comece a correr grande risco de se infectado. Portanto, tome cuidado! Não adianta lavar as mãos e usar álcool em gel. Para se livrar do vírus da idiotice é preciso ignorar os infectados, fazendo com que mínguem no breu da ignorância e padeçam solitários até a morte. Só assim poderemos construir um mundo sem Idiotas. E não se esqueçam: vacinem seus filhos!


Felipe Attie

REFLEXÕES DE QUARENTENA

Que dia é hoje? Que horas são? Isso importa? Pelo visto não. Em tempos de quarentena e isolamento social é estranha a sensação que temos de que os dias parecem ser exatamente uns com os outros. Pelo celular acompanho o mundo lá fora. As pessoas que seguem trabalhando. O número de mortos que continua crescendo. O presidente verbalizando asneiras. Um dia após o outro. Tudo igual. Essa rotina absurdamente tediosa me levou a refletir sobre a nossa existência e me peguei pensando na morte. Mergulhado nessa mórbida reflexão não foi difícil enxergar o valor que ela possui.


Já pensou como seria se ninguém morresse? Além da desordem e do caos proveniente da escassez de recursos naturais e espaço físico para atender as necessidades de todos, a nossa vida seria um eterno tédio. Não teríamos com o que nos preocupar, uma vez que não teríamos ameaças nem correríamos riscos. Sem prazo de validade, nossa vida seria uma eterna sucessão de dias vazios delimitados apenas pelo nascer do sol.


Sem a morte, acredito que o mundo não estaria repleto de inovações tecnológicas. Carros, celulares, internet... nada disso faria parte da nossa vida, uma vez que tudo isso foi criado para tornar mais confortável o nosso curto período por aqui. Não duvido que ainda estivéssemos de carroça! Afinal, pra que perder tempo inventando um veículo que nos transporte com rapidez se temos todo o tempo do mundo à nossa disposição? Sem a morte não teríamos pressa.


Ouso dizer que sequer metade das invenções e obras de arte existiria. Afinal, uma das forças motivadoras do artista vem justamente do seu ingênuo desejo de se eternizar através do seu trabalho. Todo artista almeja deixar um legado. Tal ambição seria ofuscada pela vida eterna. Isso pra não mencionar a procrastinação! Imagina poder deixar seus afazeres pra amanhã tendo a certeza de que o amanhã vai existir! Talvez, obras como a Mona Lisa, A Criação de Adão e o Nascimento de Vênus não seriam feitas. Livros como Crime e Castigo ou Ulysses nunca seriam escritos e, consequentemente, artistas como Leonardo da Vinci ou Beethoven não seriam eternizados. Afinal, a arte existe justamente pra nos mostrar que a vida é muito mais do que uma eterna sucessão de dias vazios delimitados apenas pelo nascer do sol.


Mergulhado nessa mórbida reflexão não foi difícil enxergar o valor que a morte possui. Ela é cruel e muitas vezes injusta. Ela causa dor e revolta. Ela é irremediável. Porém, o simples fato de delimitar nossa vida faz com que valorizemos estar vivos.


Felipe Attie

A BELEZA DA MORTE

Eu e minha esposa fomos à CADEG comprar, segundo ela, a ornamentação para a festa de dois anos do nosso filho. Pra quem nunca foi ou ouviu falar, a CADEG é o mercado municipal do Rio de Janeiro que conta com uma infinidade de lojas que vendem os mais variados produtos. Em meio a nossa andança (acredite, lá você anda muito), encontramos o que ela tanto procurava.


“Flores mortas?”, perguntei surpreso.

“Não”, retrucou ela. “Flores secas!”

“Mas se estão secas é porque estão mortas.”

“Felipe, cala a boca e segura isso”, disse ela, entregando-me um chumaço de flores que, mal se acomodou em minhas mãos, começou a se desmantelar.


Paramos num boteco pra tomar cerveja e pastéis de camarão. Enquanto saboreava essa combinação perfeita, encarei aquele apanhado de flores e folhas mortas que ocupava a cadeira ao meu lado e questionei como aquilo seria útil na decoração da festa de aniversário de uma criança. Sou do tempo onde festas infantis se resumiam a uma mesa forrada com uma toalha qualquer, algumas bexigas de gás coloridas e um pôster com um desenho de palhaço ou algum super-herói preso na parede com fita crepe.


“É estranho né?”, resmunguei.

“O que é estranho?”, questionou minha esposa, limpando o recheio de camarão que havia borrado sua bochecha.

“Essas flores”, respondi. “Estão mortas e, mesmo assim, você comprou.”

“Ainda esse papo?”

“Eu achava que só vendessem plantas vivas.”

“Cara, fica quieto. Tu não sabe de nada. Isso vai ficar lindo! Você vai ver.”


Apesar de difícil, confiei na minha esposa. Ela devia saber o que estava fazendo. Afinal, ninguém comprar flores mortas sem saber o que tá fazendo. Pagamos a conta e, no caminho de volta pra casa, me peguei pensando no profissional responsável por colher essas plantas. Qual a formação necessária para trabalhar com isso? Como se consegue um emprego desses? O que ele responde quando lhe perguntam sua profissão? Qual a carga horária de trabalho? Imaginei ele acordando todos os dias, tomando café, dando um beijo na mulher, nos filhos, e indo ao campo trabalhar colhendo flores secas. Foram inúmeras questões que aquele simples amarrado de folhas fez brotar em minha cabeça.


Chegamos em casa, minha esposa pegou um jarro de cerâmica, um saco de cascalhos que eu sequer sabia que ela possuía, se ajoelhou no chão da sala e começou a trabalhar com invejável maestria. Fui pra cozinha fazer um café. Já havia desistido de entender aquela situação. Um bom tempo se passou até que ela me chamou para ver o resultado.


“Ficou lindo!”, respondi surpreso.

“Eu disse que ficaria”, comentou ela, orgulhosa.


De fato, ficara lindo. O que antes se resumia a um emaranhado de flores e folhas mortas e sem graça, havia ganhado vida, após passar pelas mãos de minha esposa. Foi então que concluí que, nas mãos certas, até a morte tem sua beleza.


“Você devia trabalhar com isso”, comentei.

“Eu? Sei lá... Você acha?”

“Com certeza”, respondi antes de me retirar, segurando meu copo de café e deixando-a só, com um emaranhado de questões na sua cabeça.



Felipe Attie

TRANSFORMANDO PESADELOS EM SONHOS

Eu lembro, como se fosse hoje, do momento em que abri o Word e comecei a exorcizar meus demônios através das palavras. Pura terapia. Literatura crua e impulsiva. Na época, eu era redator publicitário, o cara que cria slogans, jingles e frases bacanas que te fazem querer comprar margarina, sabão em pó e pasta de dente. Eu era bom. Eu sabia fazer meu trabalho. Mas se tem uma coisa que eu sabia ainda mais é que eu odiava fazê-lo. Odiava mais ainda o fato de ter feito aquele maldito telefonema.


Eu tinha 18 anos quando liguei pra agência de propaganda à procura de um estágio. A diretora de criação atendeu e disse que a vaga já havia sido preenchida. Eu, que sempre fui petulante e piadista, lamentei e disse que eles tinham acabado de perder um excelente profissional. Ela riu do lado de lá. Eu ri do lado de cá. Ela gostou de mim, do meu humor e da minha petulância. Fui chamado pra uma entrevista. No dia seguinte, lá estava eu com meu portfólio contendo alguns quadrinhos e crônicas. Batemos um papo. Ela gostou de mim, do meu humor e do meu trabalho. Fui contratado. Assim começou o meu inferno particular.


Logo eu descobri que meu lugar não era ali, escrevendo frases bacanas que te fazem querer comprar margarina, sabão em pó e pasta de dente. Logo eu me dei conta de que não devia estar dentro de um aquário de criação, escrevendo frases bacanas para vender margarina, sabão em pó e pasta de dente. Não era essa a vida que eu queria. Eu precisava pular fora daquele maldito lugar. Mas eu precisava do emprego. Precisava de dinheiro e não enxergava outra maneira de monetizar as únicas coisas que sei fazer: escrever e desenhar.


Eu nunca tirei férias porque nunca fiquei mais de um ano num mesmo emprego. Eu já entrava numa agência contando os dias para pedir demissão. Meu único objetivo era juntar grana suficiente para chutar o balde e ficar desempregado por mais um tempo, distante de toda aquela paranoia. Então, o tempo passava, a grana esgotava e eu precisava voltar a trabalhar. Falava com meus contatos profissionais, que eram todos publicitários, e lá estava eu, mais uma vez, adentrando os portões do inferno. Eu vivia num looping de autopunição e sofrimento. A história sempre se repetia. A agência mudava, os clientes eram outros, mas não demorava até eu precisar me trancar no banheiro para chorar e me culpar por ter começado com tudo aquilo mais uma vez.


Então, certo dia, enquanto encarava a página em branco do Word pensando no título perfeito para vender margarina, sabão em pó e pasta de dente, eu comecei a escrever de forma aleatória, apenas usando as palavras para desabafar:


Você está no banheiro, parado frente ao espelho. Seu nariz sangra. O sangue escorre pelo seu queixo, seu pescoço e suja a gola da sua camiseta. Você vai trabalhar todos os dias de jeans e camiseta. Muitas pessoas enxergam isso como uma regalia. Quando você começou, também achava o mesmo. Todo emprego, no começo, é interessante. Mas é só questão de tempo, até você olhar ao redor e ver o quanto não quer estar ali. O quanto não quer fazer o que é pago para fazer. É só questão de tempo, até você olhar no espelho e sentir vergonha do seu reflexo.


Eu não tinha a menor ideia de onde aquilo ia parar. Era literatura crua e impulsiva. Eu só queria expulsar meus demônios. Mas não demorou até eu me ver mergulhado naquela história e meu horário de expediente se transformasse num exorcismo literário. Determinei que eu só escreveria na agência e isso foi uma importante decisão. Pois, se antes eu acordava amargurado por ter que ir ao trabalho, agora, eu passava a noite contando os minutos para voltar. Eu precisava seguir com aquela história. Quanto aos textos e frases bacanas pra vender margarina, sabão em pó e pasta de dente... quem se importa? Isso me ajudou muito. Ajudou, inclusive, a tomar coragem de pular fora de toda aquela merda prometendo a mim mesmo jamais pisar numa agência de propaganda outra vez.


O tempo passou e muita coisa aconteceu. Encontrei na tatuagem a independência financeira que tanto almejava. Consegui um contrato de distribuição dos meus quadrinhos e não voltei a mexer em uma vírgula sequer daquele texto escrito de forma crua e impulsiva. Não fazia mais sentido. Eu não era mais publicitário. Uma vida nova me esperava.


Porém, anos depois, morando em São Paulo, num momento abastecido por doses cavalares de álcool e tédio, eu abri o Word e revisitei aquele texto. Notei que dali, talvez, pudesse sair um romance. Então, eu escrevi a segunda metade da narrativa e finalizei o que, enfim, se tornara Morrendo Oito Horas Por Dia.


Mais um tempo passou e mais um amontoado de coisas aconteceram. Meu filho nasceu. Construí família. Amadureci. Surgiu o Coronavirus e eu decidi disponibilizar o PDF do livro para quem quisesse se manter ocupado durante a quarentena. A resposta do público foi tão surpreendente que me encorajou a publicá-lo. Com isso, eu finalmente coloquei um ponto final nessa história que começou lá atrás, quando eu era um jovem frustrado, mergulhado num pesadelo. Realizei o sonho de ser escritor (apesar de estar longe de viver da literatura) e aprendi que a vida tem o poder de transformar pesadelos em sonhos. Você só precisa saber tirar proveito da dor e do sofrimento. Não é tarefa fácil. Mas é muito gratificante.


Caso queira conferir o resultado dessa história, você pode adquirir o livro físico aqui e o eBook aqui. Espero que se divirta com a leitura, na medida do possível.



Felipe Attie

APENAS FAÇA

Filho, eu lembro nitidamente do momento exato em que olhei para aquela tira de plástico molhada com a urina da sua mãe e descobri a sua existência. Jamais vou me esquecer. Nem se quisesse, eu seria capaz. Afinal, ainda sou assombrado pela gargalhada nervosa que sua mãe soltou no instante em que soube que estava grávida de você. Pra ser sincero, eu custei a acreditar. Só me convenci mesmo, quando me peguei admirando uma mancha do tamanho de um gergelim pulsando de forma ritmada no monitor do aparelho de ultrassonografia. Era o seu coração.


Você nasceu e aconteceu muita coisa desde então. Foi rápido, mas não tão difícil como dizem. No começo, tudo se resume a trocar fraldas sujas e não deixar você cair. Com o tempo, o grau de dificuldade aumenta em alguns pontos e diminui em outros. Em alguns momentos é um pouco assustador. Quando penso que serei responsável por ensinar você sobre a vida, tudo fica muito assustador. Afinal, a vida não é fácil, cara. Ela tem suas próprias regras e, muitas delas, são bastante desagradáveis.


Não importa o quão talentoso você é. Não importa o quão charmoso e simpático você é. Não importa quanto dinheiro você tem. Não importa sequer se você tem saúde. A vida é maior do que você e, uma hora ou outra, ela vai te derrubar. Seja numa demissão, na morte de um amigo, numa doença ou na perda de um amor. Acredite, ela vai derrubar você, filho. Quando isso acontecer, abra uma cerveja, acenda um cigarro, dê uma trepada... faça o que tiver que ser feito para exorcizar seus demônios, mas siga em frente, filho. Não dá pra ficar parado. É preciso agir, cara. Na maioria das vezes, só percebemos que não fizemos tudo que podíamos ter feito, quando não podemos fazer mais nada. Então, não corra esse risco. Faça sem medo de errar.


Cometa erros, filho. Porém, não os repita. Não seja idiota. Cometa erros novos a cada dia. Cometa erros gloriosos que ninguém jamais teve a coragem de cometer. Cometer erros significa que você tá fazendo coisas que nunca fez antes. Significa que você está se esforçando para mudar a si mesmo e alterar o mundo ao seu redor. Significa que você está aprendendo e, mais importante, que você está vivendo. Portanto, seja o que for que você estiver com medo de fazer, faça. Pouco importa se não vai ficar bom o suficiente. Perfeição é coisa de gente chata. Apenas faça. Deixe sua marca.


Caso saia errado, eu estarei aqui pra te ajudar a se recuperar e prepará-lo pra errar de novo. Pois, se tem uma coisa que seu pai é bom em fazer, é cometer erros. Portanto, faça. Só assim, você estará cada vez mais preparado para os tombos da vida. E acredite, ela vai sempre tentar derrubar você. Esse é o jogo. Assim é a vida. Aceite as regras e faça o melhor que puder sem medo de errar.


Com amor, seu pai.



Felipe Atttie

CHUTAR PRA FORA É TÃO MEMORÁVEL QUANTO MATAR ABELHAS

Pergunte para algum fã de futebol quem foi Fabio Grosso e alguns saberão te responder. Pergunte para qualquer pessoa quem foi Roberto Baggio e quase todas saberão te responder. Isso se deve ao fato de que, na vida, os erros sempre ofuscam os acertos. Como diz meu pai: “se você tiver um saldo de 99 acertos e um único erro, será lembrado pra sempre por esse erro”. É uma verdade dura e crua que precisamos aceitar. A vida fica mais leve quando sabemos que, não importa o quanto nos esforcemos, sempre seremos marcados pelos deslizes.


Caso você esteja se perguntando quem são Fabio Grosso e Roberto Baggio: o primeiro foi um jogador que, na Copa do Mundo 2006, acertou o pênalti que deu à Itália o tetracampeonato na final contra a França. O segundo foi o jogador que, na época considerado o melhor do mundo, carregou a Itália nas costas durante toda a Copa de 1994, mas chutou pra fora o último pênalti da disputa na final contra o Brasil. Dois jogadores do mesmo país. Duas situações. Um acerto que se apagou no tempo e um erro que se eternizou na história do futebol.

 

Se pararmos pra analisar a comparação, notaremos claramente que ela não é tão similar. De um lado temos um jogador que marcou um gol e, do lado oposto, temos não apenas o jogador que chutou pra fora, mas o jogador que na época era eleito o melhor do mundo, colecionando gols e momentos formidáveis no futebol. Porém, nada disso é capaz de ofuscar aquele pênalti desperdiçado. Isso prova o quanto meu pai estava certo ao me aconselhar sobre o peso que os erros têm em nossa vida.

 

O acerto, apesar de ser mais difícil de ser alcançado, logo é esquecido. Errar é sempre mais fácil e memorável. Como disse Homer Simpson: “Para ser uma pessoa boa, você tem sempre que fazer o bem. Mas para ser uma pessoa má, você não precisa fazer nada”. Isso se aplica a todas as esferas da vida. Precisamos nos esforçar constantemente para manter uma postura socialmente aceita e, mesmo assim, estamos fadados ao esquecimento no primeiro deslize. Mas, se nos anularmos numa postura neutra e indiferente, não tardará até sermos eternizados pelas críticas destrutivas.

 

Nos últimos dois anos eu devo ter matado, no mínimo, 100 abelhas. Pá! Sem pensar duas vezes. É compreensível que tal afirmação não seja bem vista pelas pessoas (ainda mais considerando a importância da espécie para o funcionamento do meio-ambiente). Porém, eu fui obrigado a matar esse número absurdo de abelhas porque, nos últimos dois anos, eu morei em uma casa onde apareciam cerca de três abelhas todos os dias no chão da minha sala. Apesar de ter salvado a maioria delas, fui forçado a matar tantas outras para que meu filho não fosse picado enquanto engatinhava pelo chão. Até nos seus brinquedos eu encontrei abelhas. Vasculhei o terreno em busca de uma colmeia, mas foi em vão. Jamais encontrei justificativa para tantas abelhas.

 

Após minha explicação, acredito que o assassinato das abelhas se torne mais compreensível. Porém, ainda sim, suas mortes continuarão se sobrepondo as demais que foram salvas. Afinal, no fim, as vítimas sempre ofuscam os sobreviventes da mesma forma que as derrotas apagam as vitórias.



 Felipe Attie