APENAS FAÇA

Filho, eu lembro nitidamente do momento exato em que olhei para aquela tira de plástico molhada com a urina da sua mãe e descobri a sua existência. Jamais vou me esquecer. Nem se quisesse, eu seria capaz. Afinal, ainda sou assombrado pela gargalhada nervosa que sua mãe soltou no instante em que soube que estava grávida de você. Pra ser sincero, eu custei a acreditar. Só me convenci mesmo, quando me peguei admirando uma mancha do tamanho de um gergelim pulsando de forma ritmada no monitor do aparelho de ultrassonografia. Era o seu coração.


Você nasceu e aconteceu muita coisa desde então. Foi rápido, mas não tão difícil como dizem. No começo, tudo se resume a trocar fraldas sujas e não deixar você cair. Com o tempo, o grau de dificuldade aumenta em alguns pontos e diminui em outros. Em alguns momentos é um pouco assustador. Quando penso que serei responsável por ensinar você sobre a vida, tudo fica muito assustador. Afinal, a vida não é fácil, cara. Ela tem suas próprias regras e, muitas delas, são bastante desagradáveis.


Não importa o quão talentoso você é. Não importa o quão charmoso e simpático você é. Não importa quanto dinheiro você tem. Não importa sequer se você tem saúde. A vida é maior do que você e, uma hora ou outra, ela vai te derrubar. Seja numa demissão, na morte de um amigo, numa doença ou na perda de um amor. Acredite, ela vai derrubar você, filho. Quando isso acontecer, abra uma cerveja, acenda um cigarro, dê uma trepada... faça o que tiver que ser feito para exorcizar seus demônios, mas siga em frente, filho. Não dá pra ficar parado. É preciso agir, cara. Na maioria das vezes, só percebemos que não fizemos tudo que podíamos ter feito, quando não podemos fazer mais nada. Então, não corra esse risco. Faça sem medo de errar.


Cometa erros, filho. Porém, não os repita. Não seja idiota. Cometa erros novos a cada dia. Cometa erros gloriosos que ninguém jamais teve a coragem de cometer. Cometer erros significa que você tá fazendo coisas que nunca fez antes. Significa que você está se esforçando para mudar a si mesmo e alterar o mundo ao seu redor. Significa que você está aprendendo e, mais importante, que você está vivendo. Portanto, seja o que for que você estiver com medo de fazer, faça. Pouco importa se não vai ficar bom o suficiente. Perfeição é coisa de gente chata. Apenas faça. Deixe sua marca.


Caso saia errado, eu estarei aqui pra te ajudar a se recuperar e prepará-lo pra errar de novo. Pois, se tem uma coisa que seu pai é bom em fazer, é cometer erros. Portanto, faça. Só assim, você estará cada vez mais preparado para os tombos da vida. E acredite, ela vai sempre tentar derrubar você. Esse é o jogo. Assim é a vida. Aceite as regras e faça o melhor que puder sem medo de errar.


Com amor, seu pai.



Felipe Atttie

CHUTAR PRA FORA É TÃO MEMORÁVEL QUANTO MATAR ABELHAS

Pergunte para algum fã de futebol quem foi Fabio Grosso e alguns saberão te responder. Pergunte para qualquer pessoa quem foi Roberto Baggio e quase todas saberão te responder. Isso se deve ao fato de que, na vida, os erros sempre ofuscam os acertos. Como diz meu pai: “se você tiver um saldo de 99 acertos e um único erro, será lembrado pra sempre por esse erro”. É uma verdade dura e crua que precisamos aceitar. A vida fica mais leve quando sabemos que, não importa o quanto nos esforcemos, sempre seremos marcados pelos deslizes.


Caso você esteja se perguntando quem são Fabio Grosso e Roberto Baggio: o primeiro foi um jogador que, na Copa do Mundo 2006, acertou o pênalti que deu à Itália o tetracampeonato na final contra a França. O segundo foi o jogador que, na época considerado o melhor do mundo, carregou a Itália nas costas durante toda a Copa de 1994, mas chutou pra fora o último pênalti da disputa na final contra o Brasil. Dois jogadores do mesmo país. Duas situações. Um acerto que se apagou no tempo e um erro que se eternizou na história do futebol.

 

Se pararmos pra analisar a comparação, notaremos claramente que ela não é tão similar. De um lado temos um jogador que marcou um gol e, do lado oposto, temos não apenas o jogador que chutou pra fora, mas o jogador que na época era eleito o melhor do mundo, colecionando gols e momentos formidáveis no futebol. Porém, nada disso é capaz de ofuscar aquele pênalti desperdiçado. Isso prova o quanto meu pai estava certo ao me aconselhar sobre o peso que os erros têm em nossa vida.

 

O acerto, apesar de ser mais difícil de ser alcançado, logo é esquecido. Errar é sempre mais fácil e memorável. Como disse Homer Simpson: “Para ser uma pessoa boa, você tem sempre que fazer o bem. Mas para ser uma pessoa má, você não precisa fazer nada”. Isso se aplica a todas as esferas da vida. Precisamos nos esforçar constantemente para manter uma postura socialmente aceita e, mesmo assim, estamos fadados ao esquecimento no primeiro deslize. Mas, se nos anularmos numa postura neutra e indiferente, não tardará até sermos eternizados pelas críticas destrutivas.

 

Nos últimos dois anos eu devo ter matado, no mínimo, 100 abelhas. Pá! Sem pensar duas vezes. É compreensível que tal afirmação não seja bem vista pelas pessoas (ainda mais considerando a importância da espécie para o funcionamento do meio-ambiente). Porém, eu fui obrigado a matar esse número absurdo de abelhas porque, nos últimos dois anos, eu morei em uma casa onde apareciam cerca de três abelhas todos os dias no chão da minha sala. Apesar de ter salvado a maioria delas, fui forçado a matar tantas outras para que meu filho não fosse picado enquanto engatinhava pelo chão. Até nos seus brinquedos eu encontrei abelhas. Vasculhei o terreno em busca de uma colmeia, mas foi em vão. Jamais encontrei justificativa para tantas abelhas.

 

Após minha explicação, acredito que o assassinato das abelhas se torne mais compreensível. Porém, ainda sim, suas mortes continuarão se sobrepondo as demais que foram salvas. Afinal, no fim, as vítimas sempre ofuscam os sobreviventes da mesma forma que as derrotas apagam as vitórias.



 Felipe Attie

LIMPAR A MERDA E SEGUIR EM FRENTE

Meu filho usou o vaso sanitário pela primeira vez. Já tem tempo que ele avisa quando suas necessidades fisiológicas estão a caminho. Começou com ele aplicando leves tapas nas fraldas. Em seguida, os tapas foram acompanhados da palavra “cocô”. Nunca “xixi”, sempre “cocô”. Talvez, por julgar que a urina é um incomodo muito mais fácil de ser resolvido, ele nunca alertou sua chegada. Em contrapartida, as fezes sempre foram recebidas com as típicas palmadas na fralda que, tão logo aprendeu a falar, passaram a ser acompanhadas pela palavra “cocô”.


Acho surpreendente que uma criança de dois anos avise que a merda vai acontecer. Mas gostaria que ele fosse capaz de premeditar aquele tipo de merda que não se resolve com um simples trocar de fraldas. Seria muito útil ter um oráculo mirim debaixo do meu teto, premeditando as cagadas da vida. Eu abriria a geladeira para pegar mais uma cerveja e ele bateria na fralda, sinalizando que meu grau de alcoolismo já passara dos limites. Eu pensaria em soltar alguma piadinha para sua mãe durante o almoço e ele bateria na fralda, avisando que talvez não fosse uma boa ideia, considerando que ela acordara com enxaqueca. Isso seria útil, principalmente, para evitar certos acidentes. Por exemplo, se ele tivesse batido na fralda antes de pular no colchão, provavelmente, eu teria evitado que meu dedo penetrasse seu olho num dos momentos mais tensos que já vivi.


Estávamos prontos para dormir. Ele brincava feliz e saltitante em cima da cama, enquanto eu arrumava as coisas para trocar sua fralda. Ele se desequilibrou e caiu. Na tentativa de segurá-lo, meu polegar entrou no seu olho com a agressividade de um soco. Na mesma hora eu senti que a merda havia acontecido e a palavra “cego” brotou em minha mente. Por que ele não bateu na fralda para avisar?, era o que eu me perguntava atônito.


Lá estava eu, de pé, em prantos, olhando meu filho estirado no colchão com as mãos no olho. Eu chorando lágrimas. Ele chorando sangue. Foi horrível. Sem sombra de dúvidas, esse é um momento que gostaria de apagar da memória. Eu e minha esposa corremos para a emergência e, após ser examinado, foi constatado que nada grave havia acontecido. “Foi uma lesão superficial”, disse a médica na tentativa de acalmar meus ânimos. “Só lesionou a parte branca do globo ocular. A retina está intacta”, sentenciou. O susto passou, mas o alívio durou pouco.


Dias depois, enquanto brincávamos no parque, ele se jogou do escorrego como um kamikaze em direção ao solo. Não fui capaz de evitar. O resultado foi um ralado na testa acompanhado de um galo similar a um chifre de unicórnio. Minha esposa olhou para mim com semblante de reprovação e tudo que pude fazer foi abaixar a cabeça e lamentar porque ele não bateu na fralda antes de saltar.


Você deve tá me achando um péssimo pai e concordo com você em alguns aspectos. Mas, definitivamente, descuido não é um deles. Depois que meu filho nasceu, eu virei a pessoa mais precavida que você pode imaginar. Sempre que chego a um lugar, eu observo atentamente cada detalhe na esperança de premeditar todo tipo de desgraça que o ambiente pode proporcionar. Sequer embalagens de bala largadas no chão passam despercebidas (só quem já escorregou numa dessas sabe o risco que elas representam). Mas nada é capaz de evitar o desastre iminente. Quando se tem filhos pequenos, os acidentes estão sempre esperando o deslize certo para virem à tona. E eles vêm. Uma hora outra, eles vêm.


Se existe algo que eu aprendi com a paternidade é que, não importa o quanto você se esforce para manter seu filho ileso, ele vai se machucar, ele vai cair, ele vai sangrar. Merdas acontecerão sem que ele tenha tempo de bater na fralda e dizer “cocô”. É inevitável. Mas você precisa ter sabedoria para limpar a merda, trocar a fralda e seguir em frente.


Felipe Attie