EU FARIA MELHOR

Não sou do tipo que questiona a existência de Deus. Sequer penso a respeito. É um tema que não me interessa. Só me pego diante desse dilema, em algumas ocasiões onde tenho certeza de que, caso ele exista, sem dúvida eu faria algumas coisas melhores do que ele. São pequenas situações que me fazem questionar por que determinadas coisas são de determinadas maneiras. Quanto mais eu busco uma explicação, mais eu concluo que, algumas coisas, eu faria melhor que ele.


Certa vez eu estava no cinema e bateu a vontade de mijar. Fiz o que qualquer pessoa faria: esperei o filme entrar naquele ponto de inércia e fui correndo ao banheiro. De pé, frente ao mictório, com o pau debruçado em meus dedos, trinquei o abdômen, expulsando o jorro de mijo as pressas. Após as últimas gotas serem cuspidas, enxuguei com papel higiênico como de costume (sempre fui contra a lambança promovida pelas tradicionais sacolejadas) e, ao fechar a calça de maneira apressada, o zíper beliscou minha piroca. Doeu. Sangrou. Diante da situação, a primeira coisa que me veio à mente foi: “Puta que pariu! Por que o órgão reprodutor masculino é tão expostamente desprotegido?”.


Se eu fosse Deus, isso não teria acontecido. Eu faria melhor por uma mera questão de coerência. Se a reprodução da espécie faz parte de um dos principais pilares da vida, por que deixar a ferramenta masculina tão exposta a acidentes? Na minha versão, o pênis só veria a luz do dia no momento adequado: na hora do sexo. Fora isso, homens seriam esteticamente discretos como as mulheres.


Sempre que me machuco, tenho o hábito de passar os dias seguintes observando o processo de cicatrização. Como uma espécie de fiscal, examino desde o coagular do sangue até o surgimento da camada protetora de casca. Então, lá pelo terceiro dia, sinto a sensação de coceira me alertando de que o processo de cicatrização está no seu auge. É uma obra de arte a forma como o nosso corpo se regenera. Porém, sempre me questiono sobre o porquê desse processo ser tão demorado.


Se eu fosse Deus, faria muito melhor. A começar pela espera. Eu nunca entendi porque precisamos esperar tanto tempo para que nossa cicatrização seja concluída. Você conhece o personagem Wolverine da Marvel Comics? É disso que estou falando. Não estou pedindo um corpo indestrutível, tão pouco a invencibilidade. Gostaria apenas que o corpo humano fosse um pouco mais ágil no quesito cicatrização. Se eu fosse Deus, o band aid não precisaria ser inventado. Afinal, se o homem é a minha maior criação, como dizem por aí, eu não o faria esperar uma semana para se livrar de um simples ralado no joelho.


Porém, nada me faz questionar tanto as decisões tomadas por Deus quanto as referentes ao nosso envelhecimento. Acho uma grande incoerência o modo como nosso corpo se deteriora com o passar do tempo. Penso nisso todos os dias, quando meu filho acorda às seis da manhã cheio de disposição para brincar, enquanto eu mal consigo abrir os olhos.


“Criança é assim mesmo”, comentou o pediatra quando questionado a respeito. “Isso é sinal de saúde.”


“Então eu devo estar muito doente, Doutor. Porque às seis da manhã eu não tenho disposição nem pra respirar.”


“Você não tá doente. Isso também é normal”, afirmou. “Ele é uma criança de dois anos e você é um adulto de quase quarenta. Não tente disputar. Você vai sempre perder.”


É aí que tá o problema. Não existe lógica alguma em uma criança de dois anos que não precisa fazer absolutamente nada, possuir mais energia do que um adulto que é forçado a trabalhar, enfrentar trânsito, pagar boletos... Por que meu filho precisa acordar cheio de energia antes mesmo de o sol nascer? É mais coerente que eu acorde disposto. Afinal, nunca vi um recém-nascido na fila do metrô, reclamando que está atrasado para a reunião. Nunca vi uma criança de dois anos tendo que se dividir entre dois empregos pra poder pagar as contas no fim do mês.


Se eu fosse Deus, com certeza as coisas seriam diferentes. Mas, infelizmente, eu não sou Deus e nada posso fazer a não ser aceitar essas injustiças e dormir. Porque já tá tarde e eu preciso estar disposto amanhã, quando meu filho acordar cheio de energia querendo brincar, enquanto eu mal consigo abrir os olhos.


Felipe Attie