MORRENDO OITO HORAS POR DIA

Você está no banheiro, parado frente ao espelho. Seu nariz sangra. O sangue escorre pelo seu queixo, seu pescoço e suja a gola da sua camiseta. Você vai trabalhar todos os dias de jeans e camiseta. Muitas pessoas enxergam isso como uma regalia. Quando você começou, também achava o mesmo. Todo emprego, no começo, é interessante. Mas é só questão de tempo, até você olhar ao redor e ver o quanto não quer estar ali. O quanto não quer fazer o que é pago para fazer. É só questão de tempo, até você olhar no espelho e sentir vergonha do seu reflexo.

Aonde foi parar aquele garoto cheio de sonhos? Ele foi vendido. Você trocou quem sonhava ser por um salário que te ilude e uma carreira que te sufoca. Tudo tem um preço. Você sabe muito bem disso. Afinal, é isso que você faz. Você é pago para ditar preços. Você é pago para convencer as pessoas a pagarem por coisas que não precisam.

Sou redator publicitário. Essa é a maneira que eu escolhi para me matar. Crio propagandas para diversos tipos de clientes: dos mais arrogantes, aos mais imbecis. Se você deseja algo que não desejava até ver uma propaganda feita por mim, eu sinto lhe dizer, você tem sérios problemas. Mas obrigado por fazer valer meu salário. O salário que eu tanto odeio receber. Hipócrita? Eu sei que sou.

Dou uma mijada. Sacudo. Lavo o rosto. Atocho meio rolo de papel higiênico nas narinas para estancar o fluxo de sangue que insiste em escorrer. Saio do banheiro.

Atualmente, todos os meus esforços criativos estão sendo usados na campanha de um plano de saúde que acaba de lançar no mercado um centro de tratamento especializado em oncologia. Isso mesmo, câncer. Quem atende essa conta é Monique, a vagabunda que faz coleção de chifres na cabeça do marido. Ela e Marcelo, o dono dessa merda toda, já treparam em todos os cantos possíveis dessa agencia. Principalmente, em cima da mesa de reunião, onde estamos agora, discutindo sobre a campanha de lançamento do Centro de Tratamento e todo o seu maquinário inovador que promete salvar vidas terminais.

Olho o layout feito por Ramon. Na foto, um homem e uma mulher aparecem abraçados numa praia. Eles estão sorrindo. O céu é azul, límpido, sem vestígio algum de poluição; a areia da praia estende-se como um tapete branco impecável; a água do mar é cristalina; o sol é radiante. O clima é de total felicidade e esperança. Uma felicidade medida em megabytes. Uma esperança criada no Photoshop.

“Tô de saco cheio disso!”, resmungo.

“Estamos”, completa Ramon. “Mas aceita que dói menos.”

Ramon é diretor de arte. Passa os dias fazendo layouts e vendo bocetas na internet. Tem decorado na cabeça os nomes de estrelas pornôs e as cores da escala Pantone. Sabe o endereço de todos os puteiros e espeluncas da cidade. É frequentador assíduo, do tipo que paga mensalidade e tem carteirinha de sócio. Pornografia… esse foi o vício que ele escolheu ter.

Toda agência de publicidade é repleta de amargura e infelicidade. Alcoólatras, aspiradores de cocaína, viciados em analgésicos, gente frustrada que gasta fortunas com prazer instantâneo. Aqui é o lugar onde pintores viram designers, escritores viram redatores, músicos viram compositores de jingles e assim por diante. Eu sou um bom exemplo disso. Sonhava ser escritor. Sonhava com minha foto impressa na orelha de um livro. Todos ao meu redor esperavam pelo momento em que estariam na fila da minha noite de autógrafos. Mas o tempo passou e eu desperdicei muitas oportunidades. Então aceitei um emprego que, além de consumir minha vida, me transformou nessa criatura amargurada que só sabe lamentar o tempo perdido enquanto cria slogans para sabonete e pasta de dente.

“Escreve aí, escolha o melhor para a sua saúde.”

“Só isso?”, questiona Monique. “Acho que a gente deveria ser mais otimista, transmitir esperança.”

“Esperança? Esperança? Minha vontade é dizer para esse cara que nada do que ele faça vai salvá-lo”, comento, apontando para o homem sorridente do layout. “Muito menos, torrar a grana que ele juntou durante anos pra pagar a faculdade do filho num tratamento que promete uma cura milagrosa.”

Olho pra Ramon que está desenhando bigodes no rosto da mulher da foto.

“Pouco me importa se esse cara da foto ou se o seu vizinho vai morrer acreditando nesse tratamento. Eu não tenho câncer, mas tenho contas pra pagar!” Enquanto Monique fala e gesticula, seus seios ameaçam saltar do decote. A filha da puta é gostosa! “Você deveria agradecer por ser pago para mentir, a maioria das pessoas faz isso de graça!”

Suas palavras ecoam na minha cabeça. Ela tem razão, a maioria das pessoas mente a troco de nada. Mas não consigo ver as coisas dessa maneira. Estou cansado. Mas, não tenho escolha. Quando se entra nesse ramo é quase impossível sair. Você se vicia num estilo de vida que é quase impossível manter no mundo lá fora, vendendo quadros, por exemplo.

Monique olha para mim, olha para Ramon e sacode a cabeça em negação. “Não sei por que eu ainda perco meu tempo com vocês. Eu não gastei uma fortuna de faculdade para trabalhar ao lado de dois idiotas.”

“Eu nunca estudei”, Ramon rebate. “Por isso não reclamo de trabalhar com você.”

“Eu preciso sair. Tenho reunião marcada com um cliente. Pensem em algo mais emotivo. Precisamos transmitir esperança!”

“O que foi decidido, afinal?”, pergunta Ramon, ao ver Monique sair da sala.

“A mesma merda de sempre… Nada.”

Com o tempo, você descobre que as reuniões de criação só servem para duas coisas. Primeiro: puxar o saco do seu superior, exaltando todas as suas ideias ridículas. Segundo: falar merda, matar tempo, fingir. Fingir que você tem boas ideias. Fingir que você sabe o que está falando. Fingir que está trabalhando. Fingir. Afinal, não é pra isso que você é pago?


Caso queira conferir o resultado dessa história, você pode adquirir o livro físico aqui e o eBook aqui. Espero que se divirta com a leitura, na medida do possível.