O MAIS PRÓXIMO DA IRLANDA

Recentemente, eu descobri que os caroços que habitam minha mão direita atendem pelo nome de Contratura de Dupuytren: uma doença, moléstia, anomalia ou como preferir chamar, que acomete a palma da mão e os dedos com o surgimento de nódulos fibrosos. Sei que pareço um médico falando, mas é que eu já li tanto sobre isso, que me sinto habilitado a prestar consultas. O que me parece uma boa ideia. Afinal, eu preciso começar a procurar outra fonte de renda, considerando o fato de que meu ortopedista disse que a tendência é que, conforme a progressão da doença, meus dedos se dobrem permanentemente, fazendo com que minha mão fique semelhante a uma garra.


“Uma garra?!”, perguntei surpreso.


“Isso mesmo”, concordou o médico. “Conforme os nódulos crescem, surgem cordões fibrosos que retraem os tendões dos dedos e fazem com que eles se dobrem.”


Permaneci um tempo em silêncio, encarando minha mão e imaginando o estilo de roupa que precisarei usar para combinar com minha mão de garra. Algo parecido com pirata, talvez.


Busquei imagens na internet e não gostei do que encontrei: uma sucessão de mãos tortas e enrijecidas, similares àquelas mãozinhas de plástico presas a uma vareta que as pessoas usam para coçar as costas. Se for isso que o futuro me reserva é preocupante. Ainda mais, levando em conta que sou tatuador. É bom mesmo eu encontrar outras formas de ganhar dinheiro ou torcer para que clientes pouco exigentes, dispostos a carregar pelo resto da vida uma tatuagem de qualidade duvidosa feita por um tatuador com mão de garra, cruzem o meu caminho.


Outras informações que obtive do meu ortopedista sobre essa tal Contratura de Dupuytren, incluem que ela tem predileção por homens acima dos quarenta anos e que coisas como alcoolismo, tabagismo, diabetes e epilepsia favorecem o seu surgimento. Eu não fumo e, até onde eu sei, não sou epilético. Mas tenho quase quarenta, sou diabético e mantenho uma relação íntima com o álcool. Portanto, eu me enquadro em quase todas as características do público alvo dessa doença. Ainda segundo meu ortopedista, entre os homens afetados, a maior parte é composta por irlandeses. “Essa doença tem o histórico de afetar irlandeses”, disse ele, olhando-me por cima dos óculos aro de tartaruga. Ele perguntou se tenho descendência irlandesa e respondi que não, mas assim que meus dedos atrofiarem eu vou tentar tirar meu visto.


A forma como ele descreveu meu diagnostico, utilizando termos como “histórico irlandês”, “condição rara” e “causas desconhecidas”, fez eu me sentir especial, como se eu fosse bom o suficiente para ser escolhido por uma doença tão seletiva ou tivesse passado no teste de habilidade específica de um concurso muito concorrido. Senti vontade de sair do consultório avisando a todos que cruzassem meu caminho sobre a minha doença rara, igual a uma mãe orgulhosa do filho aprovado no vestibular.


“Parece que vai chover”, diria alguém olhando para o céu.


“Espero que não. Porque eu sofro de Contratura de Dupuytren e não consigo segurar o guarda-chuva”, eu comentaria, mostrando minha mão em forma de garra.


A pessoa olharia desconfiada e eu começaria minha palestra sobre minha enfermidade rara, cheia de informações irrelevantes para todos aqueles que possuem mãos saudáveis.


Mas meu momento de celebridade terminou logo assim que saí do consultório médico e fiz uma busca na internet. O Google me disse que essa é uma doença comum, que afeta muito mais pessoas do que meu ortopedista imagina. Apesar de fatores genéticos favorecerem seu surgimento, sua causa continua sendo um mistério pra medicina. Contrariando o laudo do meu ortopedista, descobri que existem tratamentos que podem retardar ou até mesmo encerrar seu avanço. Porém, o que mais me deixou surpreso foi que, durante minha pesquisa, o Google não me mostrou nada relevante que comprovasse o “histórico irlandês” citado pelo meu médico. De fato, trata-se de uma doença que atinge mais homens do que mulheres e o alcoolismo é um fator agravante. Mas não encontrei nada que dissesse que a maioria desses homens são cachaceiros irlandeses. De onde meu médico tirou essa informação? Será que ele inventou isso? Mas por que ele faria uma coisa dessas? Que tipo de médico mente para o paciente? Será que, compadecido com a minha possível aposentadoria precoce por invalidez, ele tentou amenizar minha situação fazendo eu me sentir, de certa forma, especial?


Fechei o laptop e encerrei minha pesquisa decepcionado, sentindo-me apenas uma pessoa comum diagnosticada com uma doença qualquer. Eu estava, acima de tudo, frustrado por reconhecer que, provavelmente, a Contratura de Dupuytren era o mais próximo que eu chegaria da Irlanda.


Meus nódulos de estimação!

Felipe Attie